Comunicador indígena acreano é um dos nove indígenas brasileiros selecionados para formação internacional em Genebra

Jovem liderança do povo Shawadawa/Arara, do Acre, participa do Programa de Bolsas do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH)

Samuel Arara na entrada principal do Palais des Nations, sede das Nações Unidas em Genebra, na Suíça. Foto: Divulgação/ACNUDH.

Samuel  Arara, do povo Shawādawa/Arara, natural de Porto Walter, no interior do Acre, está entre os nove indígenas brasileiros selecionados para participar do Programa de Bolsas para Povos Indígenas do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH), realizado em Genebra, na Suíça. Para Samuel, estar em Genebra significa levar à comunidade internacional as vozes dos povos indígenas amazônicos, especialmente da juventude.

"Chegar à sede das Nações Unidas pela porta da frente é um marco na minha trajetória, mas, acima de tudo, é uma responsabilidade. Não represento apenas a mim mesmo. Trago comigo meu povo, o Acre, a Amazônia, a juventude indígena e todas as comunidades que seguem resistindo na defesa de seus territórios, de suas culturas e de seus direitos."

A formação reúne lideranças indígenas de diferentes regiões do Brasil e do mundo para aprofundar conhecimentos sobre os mecanismos internacionais de proteção dos direitos humanos e fortalecer a incidência política dos povos indígenas nos espaços globais de decisão.

Samuel construiu sua atuação pública a partir da realidade vivida pelos povos indígenas da região. Sua trajetória é marcada pela defesa dos direitos indígenas, da educação, da comunicação como instrumento de fortalecimento cultural, da justiça climática e da participação da juventude nos espaços de tomada de decisão.

Integrantes do I Coletivo de Comunicação Indígena do Acre - Tetepawacomunica reunidos em território. Foto: Reprodução/Tetepawacomunica.

Territórios viajados e ocupados

Atualmente, Samuel é estudante de Engenharia Florestal da Universidade Federal do Acre (UFAC), presidente do Coletivo de Estudantes Indígenas da UFAC (CEI-UFAC) e coordenador Regional do Tetepawacomunica - Coletivo de Comunicação Indígena do Acre. Segundo ele, compreender os mecanismos internacionais fortalece a capacidade de incidência das organizações indígenas.

"Os mecanismos da ONU são instrumentos fundamentais para fortalecer a proteção dos direitos humanos. Nosso compromisso é aprender como utilizá-los de forma estratégica para ampliar a defesa dos povos indigenas e contribuir para que as decisões internacionais estejam cada vez mais conectadas às realidades vividas em nossos territórios."

Antes de chegar à Suíça, Samuel participou da etapa preparatória do programa em Brasília, realizada entre os dias 8 e 19 de junho, na Universidade de Brasília (UnB), no Instituto de Relações Internacionais.

Durante duas semanas de formação intensiva, os participantes aprofundaram conhecimentos sobre relações internacionais, direito internacional dos direitos humanos, funcionamento do Sistema ONU, mecanismos de proteção internacional e instrumentos específicos voltados aos direitos dos povos indígenas.

Bolsistas de diversas regiões socioculturais do mundo e a representação brasileira com as bandeiras do Brasil e do Acre no Palais des Nations. Foto: Divulgação/ACNUDH.

A programação incluiu encontros institucionais coordenados pelo ACNUDH com representantes da Funai, APIB, CIMI, Procuradoria-Geral da República (PGR), UNESCO e Defensoria Pública da União (DPU), permitindo um diálogo direto entre lideranças indígenas, organismos internacionais e instituições brasileiras.

Ao concluir a formação em Genebra, Samuel retornará ao Brasil com a missão de compartilhar os conhecimentos adquiridos com organizações, lideranças, estudantes e comunidades indígenas. Para ele, a formação não termina na ONU. Ela continua nos territórios, fortalecendo organizações indígenas, qualificando a incidência política e ampliando o acesso aos mecanismos internacionais de direitos humanos.

"Aprender na ONU só faz sentido se esse conhecimento voltar para nossas comunidades. Nosso maior compromisso é transformar essa experiência em ferramentas concretas para fortalecer a luta dos povos indígenas, proteger nossos direitos e garantir que nossas futuras gerações encontrem territórios vivos, culturas fortalecidas e direitos respeitados."

Samuel Arara utiliza os mecanismos internacionais da ONU para ecoar as demandas da juventude e dos povos da Amazônia em Genebra. Foto: Divulgação/ACNUDH.

Formação na sede das Nações Unidas

Em Genebra, Samuel integra a delegação brasileira composta por nove representantes indígenas provenientes de diferentes povos e estados brasileiros. O grupo participa de uma formação voltada ao funcionamento dos mecanismos das Nações Unidas para os direitos humanos, aprendendo como acessar esses instrumentos, elaborar comunicações internacionais, acompanhar recomendações aos Estados, compreender os órgãos de tratados e ampliar a defesa dos direitos dos povos indígenas em âmbito internacional.

A programação reúne ainda outros 37 representantes indígenas oriundos das sete regiões socioculturais indígenas do mundo: América do Norte, Mesoamérica, América do Sul, África Subsaariana, Europa, Ártico, Ásia e Oceania.

Samuel Arara e lideranças indígenas em agenda institucional na Casa da ONU Brasil, em Brasília, durante a etapa preparatória do programa. Foto: Casa da ONU Brasil.

Acompanhando o EMRIP

Um dos momentos mais importantes da programação será a participação na 19ª Sessão do Mecanismo de Peritos sobre os Direitos dos Povos Indígenas (EMRIP), realizada no Palais des Nations, sede europeia das Nações Unidas.

Durante a sessão, Samuel acompanhará debates sobre temas relacionados aos direitos territoriais, participação política, consulta livre, prévia e informada, preservação cultural e implementação da Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas.

A experiência permitirá dialogar diretamente com especialistas internacionais, representantes de Estados, organismos multilaterais e lideranças indígenas de diferentes continentes.

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