Existe uma criança dentro de mim, insistindo em ter coragem
Artigo de opinião por José Lucas
Ilustração “Zé e o Mostro”. Arte: José Lucas Alencar
18 de Maio - Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual Infantil
Eu tinha cinco anos quando comecei a ter medo de monstro.
Aos sete, pedia para dormir na cama dos meus pais, alegando ter um desses bichos feios, com mãos peludas maiores que a minha cabeça, debaixo da minha cama, só esperando eu cair no sono para me pegar. Algumas tentativas foram exitosas, outras nem tanto. Eles nunca o encontrava e me falavam que era normal criança ter medo, era coisa da minha cabeça, uma hora você cresce e passa, diziam. Apesar de ainda ser incômodo sua presença insistente ali embaixo e não querer encará-lo, acabei por me acostumar com ele ali.
Quando cheguei aos oito anos, o monstro resolveu se comunicar comigo. Me contou histórias aterrorizantes, com palavras novas das quais eu nunca tinha ouvido antes. Eu, que tinha acabado de aprender o que eram as vogais na escola e que o coração ficava do lado esquerdo do peito, tive que jurar nunca contar alguns segredos, tendo a morte como garantia do desacordo.
“Alô? Alô? Planeta terra chamando! planeta terra chamando! Esta é mais uma edição do diário de bordo de Lucas Silva e Silva, falando diretamente do mundo da Lua, onde tuuuudo pode acontecer…”
Essa era a intro de um dos meus programas favoritos quando criança, o seriado Mundo da Lua, que passava reprises de episódios na TV Cultura, era um dos meus momentos favoritos do dia. Os episódios giravam em torno de um menino que ganha um gravador de seu avô e começa a gravar histórias a partir de como gostaria que as coisas fossem. Por um bom tempo, eu quis ser como o Lucas e imaginei muitas coisas pro meu universo.
Logo cheguei nos 10 anos, minha imaginação começou a não ser mais suficiente para me manter no meu mundo. Talvez não fosse tão normal se acostumar com monstros debaixo da cama e não conseguir dormir por medo dos pesadelos também recorrentes. Experimentei o significado da palavra coragem quando percebi que o acordo que o tal monstro me fez assinar era falso, as cláusulas não batiam.
Eu já sabia muito mais do que vogais agora.
Inspirado no seriado do menino que imaginava demais e na possibilidade de ter outra realidade me esperando. Resolvi olhar em seus olhos e confrontá-lo, questionei o porquê eu tinha que ser o escolhido para ser amedrontado todos esses anos e que eu precisava dormir um pouco, pois tinha sono. Ameacei bani-lo de vez debaixo da minha cama, sua mudança foi gradativa, conforme ele percebia que ali ele não poderia mais fazer morada, se foi.
Mais tarde eu entenderia que, embora as coisas passem, elas ainda podem ficar escondidas dentro da gente. Às vezes adormecem, mas acordam quando menos esperamos. Isso se chama trauma. Hoje, consigo olhar com menos medo para debaixo da cama, o monstro já não está mais lá, mas para muitas outras crianças não.
Segundo levantamentos do 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, a cada 8 minutos, uma criança é abusada sexualmente no Brasil. Em 2024, foram mais de 87 mil estupros no Brasil registrados e mais da metade das vítimas tinham menos de 14 anos. Esses números representam apenas os casos denunciados, os não reportados ainda fazem com que esse número seja muito maior.
É necessário que escutemos nossas crianças e adolescentes com a urgência e a atenção que escutamos quando um adulto fala. Acolher o relato de uma criança é o primeiro passo para expulsar o monstro debaixo da cama.
DENUNCIE! Disque 100! Acesse: https://www.facabonito.org/https://maiolaranja.org.br/