A carta que encontrou o futuro
Por Ádrya Miranda
No encerramento do Festival Jovens do Futuro, juventude e cultura reafirmam a atualidade da mensagem que Chico Mendes escreveu em 6 de setembro de 1988
Maria Helena, uma das netas de Chico Mendes, leu a Carta no palco da última edição do Festival. Foto: Clara Lis
Em 6 de setembro de 1988, Chico Mendes escreveu uma carta para a juventude. Uma mensagem lançada ao tempo, para chegar a pessoas que ainda não existiam na história que ele ajudava a construir. Quase quatro décadas depois, suas palavras continuam encontrando novas gerações.
É dessa carta que nasce o Festival Jovens do Futuro. E é a origem e o fio condutor de um encontro que reúne juventude, cultura, conhecimento e diferentes gerações para pensar a Amazônia e os caminhos necessários para protegê-la.
Em 2026, o festival trouxe como tema “Pertencer para Proteger”. No encerramento, essa ideia ganhou música, com uma programação formada por artistas do Acre e de diferentes lugares da Amazônia, celebrando a cultura de um território que também se reconhece e se fortalece por meio de suas vozes.
Mas, antes de chegar ao palco, essa história começou em uma carta.
Mesmo sob o frio, público compareceu em peso ao Festival Jovens do Futuro. Foto: Clara Lis
Uma carta que continua viva
Gomercindo Rodrigues, advogado e companheiro de luta, que encontrou a carta de Chico Mendes, conhece de perto a força daquela mensagem. Para ele, Chico estava à frente de seu tempo ao pensar na juventude da floresta e na importância de que os jovens pudessem estudar sem precisar abandonar seus territórios.
Hoje, ao olhar para as novas gerações, Gomercindo define esse legado como uma semente.
“O jovem hoje tem que olhar o Chico como alguém que plantou uma semente. A semente de que é possível ter um mundo melhor, é possível viver melhor, é possível ser solidário sem destruir.”
Uma semente plantada em 1988 que continua encontrando terra fértil. Essa permanência também aparece na forma como o festival se relaciona com a carta. Hannah Lydia, coordenadora de comunicação da ONG, explica que a mensagem de Chico não é apenas uma referência histórica, mas o elemento que conecta as diferentes atividades do encontro.
Pisada dos Txana foi um dos destaques do baile que encerrou o Festival Jovens do Futuro. Foto: Clara Lis
“A carta é o Festival Jovens do Futuro, ela é o fio condutor de tudo, de todas as atividades.”
A mensagem está nas leituras, nas artes e nos debates, mas também na ideia de pertencimento que atravessa a edição. Reconhecer-se parte do território é, nesse sentido, um primeiro passo para compreender a responsabilidade de protegê-lo. Como resume Hannah:
“A gente protege o que a gente defende.”
Essa compreensão também aparece na fala de Kauã Lucas, influenciador digital. Ao participar do festival, ele reconhece na Carta de Chico um chamado para uma juventude que precisa assumir seu papel diante dos desafios da Amazônia.
“A Carta de Chico é muito atual porque ela traz para a gente essa ideia de que a gente tem que se movimentar.”
O futuro acontece agora
Se Chico escreveu para uma juventude que ainda viria, o festival parte de uma certeza: não é preciso esperar o amanhã para começar a construí-lo.
É daí que surge “O Futuro é Agora”, ideia que coloca o presente no centro das escolhas sobre o que está por vir. José Lucas Alencar, estudante de cinema e integrante do movimento, traduz essa urgência em poucas palavras:
“A gente não pode mais esperar pra esse futuro chegar, senão talvez ele nem chegue.”
O futuro, então, deixa de ser um lugar distante. Começa nas escolhas de hoje, na organização, na participação e na coragem de transformar aquilo que parece apenas uma possibilidade em movimento e esse movimento também passa pela cultura.
A “Casa do Chico”, lojinha do Comitê, fez sucesso durante as celebrações. Foto: Clara Lis
No encerramento, artistas do Acre e da Amazônia ocuparam o palco para reafirmar identidades, histórias e formas de expressão que pertencem ao território. Pia Vila, cantor, que há décadas vive a música acreana, chama atenção para a necessidade de que essa construção continue pelas mãos das novas gerações.
“O Acre precisa construir a sua identidade musical.”
Quando lembrar também é continuar
Manter Chico Mendes presente é também apresentar sua história a quem não viveu o período de sua luta. Sandra Buh destaca que eventos como o festival ajudam a aproximar essa memória das novas gerações.
“O Chico Mendes precisa ser lembrado sempre. Esse tipo de evento serve para pessoas que não conviveram com ele, que não participaram na época da luta, saberem que existiu uma luta, que existiu uma pessoa que lutou pela gente, lutou pela nossa floresta, lutou pela nossa Amazônia.”
Mulheres da música encerraram as festividades no dia 6 de setembro. Foto: Clara Lis
A memória, porém, não precisa permanecer parada no passado. Ela pode servir como ponto de partida para novos movimentos. É nesse sentido que Sandra vê no contato dos jovens com essa história uma possibilidade de continuidade:
“Cada vez que isso vem à tona, empodera os jovens para também lutar igual o Chico Mendes lutou.”
O que permanece
Ao olhar para os dias de festival, Vands Mile, produtora do encontro, destaca a alegria de ver a juventude reunida, dançando, criando e ocupando aquele espaço. Mas também aponta para aquilo que permanece para além do encontro: os trabalhos produzidos pelos jovens no Crias de Chico, os debates e a pesquisa apresentada sobre juventude, crise climática, empregabilidade e as possibilidades de um futuro de qualidade na Amazônia.
“A nossa pesquisa é a primeira que traz esses resultados e fala sobre o que a juventude da Amazônia pensa sobre a crise climática, a empregabilidade e o futuro de qualidade na Amazônia”, destaca Vands
Pia Villa subiu ao palco junto com a banda AfroSeringal. Foto: Clara Lis
São diferentes formas de participação. Diferentes maneiras de dizer que a juventude não está apenas sendo chamada para falar sobre o futuro. Ela já está fazendo parte da construção dele.
Talvez seja essa a força de uma carta escrita há quase quatro décadas: ela não oferece respostas prontas. Ela atravessa o tempo e continua provocando movimento. Em 6 de setembro de 1988, Chico Mendes escreveu para uma juventude que ainda viria.
Hoje, essa juventude está aqui.
Não como uma geração que chegou ao futuro, mas como uma geração que ainda o constrói, nas escolhas, na cultura, na defesa do território, na organização e na coragem de continuar. A carta permanece. A luta permanece. E enquanto houver quem leia suas palavras e decida se movimentar, o futuro continuará sendo agora.