Entre música e representatividade, Festival Jovens do Futuro celebra vozes da Amazônia

Por Camila Lobaton

Show de Raidol, ao lado de Lily e Saliza, destacou a presença de artistas trans amazônicas na programação do festival

Show com Raidol, Saliza e DJ Lily fechou a programação do dia 6 de setembro. Foto: Clara Lis

A programação cultural foi um dos destaques do Festival Jovens do Futuro, no dia 6 de setembro. Entre diferentes ritmos e manifestações da Amazônia, o show de Raidol chamou atenção pela presença de Dj Lily e Saliza, reunindo três mulheres trans amazônicas no palco.

Para Joás Linhares, participante do festival, a apresentação foi um dos momentos mais marcantes. Ele já conhecia o trabalho de Raidol, mas conta que acompanhar o show ao vivo teve um significado diferente.

“É muito importante ela ter chamado Lily e Saliza para fazer essa conexão de três mulheres trans da Amazônia.”

Juventude somou em peso no baile do dia 6 de novembro. Foto: Clara Lis

Além da apresentação, Raidol também prestou homenagens a Angela Mendes e às benzedeiras, momentos que emocionaram o público. Para Joás, a combinação entre música, identidade e memória tornou o show ainda mais significativo.

A programação também abriu espaço para outras expressões culturais da região. AfroSeringal, Me Acorde Mais Tarde e Pisada dos Txana estiveram entre as atrações, enquanto as feiras de artesanato indígena aproximaram o público da produção artística e cultural dos povos da Amazônia.

As pessoas tiveram a oportunidade de mostrar suas artes e, enfim, as pessoas consumirem arte local também, que é super importante’, reafirmou Linhares.

Mais do que compor a programação do festival, as atrações ajudaram a colocar no mesmo espaço diferentes formas de viver, criar e se reconhecer como parte da Amazônia. A presença de artistas trans, indígenas e de outras expressões culturais reforçou a proposta desta edição, “Pertencer para Proteger”, ao transformar o palco também em espaço de representação e pertencimento.

Edição contou com espaço da sociobioeconomia e lojinha exclusiva do Comitê Chico Mendes. Foto: Clara Lis

“Não existe futuro sem floresta”

No Festival Jovens do Futuro, a presença de comunicadores indígenas trouxe para a programação discussões sobre território, preservação e ancestralidade, aproximando o tema desta edição das experiências dos povos que vivem na floresta.

Um dos participantes foi Júlio Lima de Souza, indígena do povo Shawãdawa, do território Igarapé Humaitá, em Porto Walter. Convidado pelo Centro de Pesquisa Indígena (CPI), ele participou das atividades como comunicador indígena e falou sobre a importância de ocupar espaços voltados à discussão ambiental.

Para Souza, a relação cotidiana com a floresta dá aos povos indígenas uma perspectiva própria sobre os desafios enfrentados pelo meio ambiente.

“Não existe ninguém mais capacitado para falar sobre o meio ambiente, abordar temas e discutir sobre eles do que os jovens que vivem na floresta e jovens indígenas que estão em contato direto com a natureza.”

Mesmo sob chuva, parceria com o Cultura na Praça foi sucesso no Festival. Foto: Clara Lis

A preservação, para os povos indígenas, também está ligada à continuidade de modos de vida, relações com os animais, espiritualidade e ancestralidade. Por isso, quando pensa no futuro, Júlio não o separa da permanência da floresta.

“Quando eu penso em futuro, pra mim o futuro não existe sem que a floresta esteja de pé, não existe futuro sem floresta.”

A participação indígena também evidencia a importância de diferentes vozes na construção das discussões sobre a Amazônia. Durante o festival, Souza conta que estar naquele espaço significou falar não apenas por si, mas também por outros integrantes de seu povo que compartilham o desejo de participar desses debates.

Eu não tô falando só por mim, pela primeira vez eu estou representando uma base muito forte de jovens do meu povo que sonham em estar aqui.”

Angela Mendes, presidente do Comitê Chico Mendes, foi homenageada ao final do Festival Jovens do Futuro 2026. Foto: Clara Lis

Ao aproximar cultura, meio ambiente e participação social, o festival cria um espaço para que diferentes experiências da Amazônia sejam compartilhadas. A presença indígena coloca o território não apenas como cenário das discussões ambientais, mas como parte fundamental das identidades, das memórias e dos projetos de futuro de quem vive nele.

“Procure se entrelaçar, abraçar causas ambientais, porque eu acredito que você vai estar fazendo e muito para que a floresta continue em pé e para que o meio ambiente continue saudável”, conclui Souza.

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