Comunicadores climáticos

Como a comunicação popular se tornou uma das principais fontes de informação em tempos de enchente

Com ruas alagadas, moradores usam barcos para levar cestas básicas. Foto: Juan Diaz

Cruzeiro do Sul em 2025 e 2026 foi centro de enchentes históricas. Em 2026, o município enfrentou cinco transbordamentos do Rio Juruá em apenas quatro meses, culminando em uma cheia histórica no fim de abril que fez o manancial atingir a impressionante marca de 14,19 metros, aproximando-se da cota máxima de 2017 (14,24m), e afetou diretamente mais de 28 mil moradores (cerca de 7.087 famílias) em dezenas de bairros, vilas e comunidades rurais. 

Diante de cenários catastróficos como esse, que provocam o desabastecimento de água potável, o corte de energia elétrica e o desalojamento em massa, a imprensa tradicional costuma adotar uma cobertura puramente factual, estatística e passageira. 

É nesse hiato civilizatório e midiático que a comunicação popular se fortalece como uma ferramenta permanente de acolhimento e resistência; como, por exemplo, a escrita da ativista socioambiental Val Martins com os registros do fotógrafo Paulo Henrique Costa para ouvir a região.

Trajetórias

Martins, sediada em Cruzeiro do Sul, teve uma formação na oralidade dos seringais e o convívio direto com os povos da floresta e comunidades tradicionais. Sua atuação como pesquisadora da memória e ativista socioambiental é um desdobramento orgânico de sua própria biografia. 

Ao seu lado, a dimensão visual dessa mesma realidade é capturada por Paulo Henrique Costa, engenheiro agrônomo e mestre em ciências ambientais que encontrou na fotografia documental o suporte técnico para registrar o cotidiano e os impactos climáticos acelerados na região.

"A minha caminhada na comunicação popular começou muito ligada à escuta, à observação e às minhas próprias experiências", pontua Val Martins. 

Nascida em uma colocação tradicional, ela cresceu assimilando os relatos que moldaram a identidade acreana. 

"Eu nasci em um antigo seringal aqui da região e cresci ouvindo histórias dos tempos de antigamente, do tempo della seringa, dos povos da floresta". 

Essa percepção encontra eco na prática de Costa, que iniciou sua jornada com a imagem de maneira recente, utilizando um equipamento emprestado em abril de 2024. Mesmo sem treinamento formal em jornalismo ou artes visuais, seu trabalho documental obteve rápido reconhecimento nacional, culminando na conquista do prêmio Marc Ferrez no final daquele ano, recurso que viabilizou a compra de sua primeira câmera em janeiro de 2025. 

"O que me motivou a fotografar as mudanças climáticas, para além de sermos moradores da região Norte, é porque esse já era um assunto sobre o qual eu falava", explica o fotógrafo, que já debatia as problemáticas ecológicas sob o prisma de sua formação acadêmica.

O encontro dessas duas linguagens cria uma rede de salvaguarda cultural e denúncia política no interior do estado. Para Martins, a motivação essencial reside no resgate da dignidade daqueles que foram empurrados para as margens do debate público. 

"A comunicação popular para mim nasce muito desse compromisso com essas vozes que historicamente foram silenciadas", assevera.

Da mesma forma, Costa direciona suas lentes para preencher o vazio deixado pela negligência informativa que afeta o Acre em comparação com os eventos climáticos do centro-sul do país. Ele destaca que suas produções visuais são pensadas como um testemunho de longo prazo, estruturadas para combater o esquecimento institucional. 

"Desde 2024 eu venho trabalhando com fotografia, e o principal foco do meu trabalho são as mudanças climáticas que acontecem aqui na região e também o cotidiano de comunidades e da cidade", afirma.

Cotidiano da crise

A grande discrepância entre o jornalismo comunitário e a imprensa comercial reside na permanência espacial. Enquanto os correspondentes nacionais se deslocam para o interior da Amazônia apenas quando os índices de desmatamento geram alarmismo internacional ou quando as águas atingem níveis catastróficos, os comunicadores populares operam a partir de uma relação de continuidade diária com as dores e potências de seu povo. 

"Na minha opinião, é porque a comunicação popular, mais do que ninguém, conhece o território por dentro", afirma Martins ao analisar a eficácia das redes comunitárias no acolhimento às populações ribeirinhas durante as cheias.”

Essa permanência mencionada por ela é vivenciada na prática por Paulo Henrique Costa, cujas coberturas fotográficas exigem uma imersão direta nas áreas inundadas e bairros periféricos de Cruzeiro do Sul. 

Paulo relembra que, no início de sua trajetória, a escassez de experiência gerava impasses éticos e pessoais sobre como abordar as famílias em momentos de extrema vulnerabilidade material. 

"Como eu não tinha um hábito muito anterior de fotografar e não tinha uma experiência muito grande, acabava que eu me sentia meio com vergonha de chegar até as casas das pessoas e pedir para fotografá-las nessa situação, nesse contexto de tragédia", rememora o fotógrafo.

Paulo Henrique ilustra esse entrelaçamento entre jornalismo e sobrevivência ao descrever sua rotina durante os picos de inundação que assolam o município. Para ele, a urgência humana frequentemente se sobrepõe ao registro documental técnico. 

"Por exemplo, nessas últimas enchentes de abril, nas duas últimas, eu muito mais carreguei água que eu comprei com o meu próprio dinheiro para dar para as pessoas do que fotografei", revela.

2025 e 2026 em Cruzeiro do Sul

O panorama das inundações no Vale do Juruá atingiu contornos de severidade sem precedentes nos anos de 2025 e 2026, consolidando um padrão de cheias recorrentes que desafia os planos municipais de contingência e sufoca a infraestrutura urbana de Cruzeiro do Sul. 

Historicamente condicionado pelos repiquetes sazonais do Rio Juruá, o município passou a registrar transbordamentos sucessivos e abruptos, impulsionados pela combinação do desmatamento nas cabeceiras dos rios e pela intensificação das anomalias térmicas no Atlântico Tropical, que desregularam o regime de precipitações na Amazônia Sul-Ocidental.

Em 2025, o Rio Juruá ultrapassou a cota de transbordo, estipulada em 13,00 metros, logo no primeiro trimestre, atingindo marcas severas que desalojaram milhares de famílias nos bairros periféricos como Lagoa, Cruzeirinho, Miritizal e Telégrafo. O isolamento de comunidades ribeirinhas e o desabastecimento de água potável urbana mobilizaram os comunicadores locais em campanhas de monitoramento autônomo, suprindo a ausência de alertas institucionais precisos.

Em abril de 2026, a situação se repetiu com contornos ainda mais graves: duas enchentes sucessivas em um curto intervalo de semanas paralisaram as atividades comerciais e agrícolas do município, submergindo áreas produtivas e evidenciando a ausência de políticas duradouras de adaptação climática. Costa enfatiza que o objetivo central de suas lentes é rasgar o véu de indiferença com que o restante do país trata a Amazônia: 

"O principal objetivo foi esse mesmo, foi falar sobre essas mudanças, os impactos desses eventos climáticos extremos que estão acontecendo de forma cada vez mais acelerada aqui na região".

Martins ressalta que o espelhamento gerado pelas narrativas populares permite que os moradores se reconheçam como atingidos por um fenômeno global, rompendo o isolamento interpretativo de suas dores. 

"Está aqui no nosso cotidiano porque ela é feita por mim, pelo Paulinho, pelas próprias pessoas que estão aqui no território", aponta.

Ela reitera a força dessa rede afetiva de informação: 

"Por exemplo, quando uma liderança, uma mulher ribeirinha, uma jovem indígena ou uma jovem como eu, e o próprio Paulinho, que é um comunicador socioambiental, ou um morador da periferia fala, as pessoas se reconhecem naquela narrativa porque elas estão sentindo na pele também toda essa questão da mudança climática.”

Racismo ambiental

Na Pan-Amazônia, as consequências da degradação ambiental incidem prioritariamente sobre recortes étnicos, raciais e socioeconômicos, penalizando os grupos sociais que historicamente mantiveram modos de vida de baixo impacto ecológico e que foram excluídos dos centros de pactuação política. A comunicação popular emerge nesse cenário como uma ferramenta de contra-narrativa, voltada para denunciar o racismo ambiental que estrutura a ocupação e o abandono das periferias e terras tradicionais.

"O racismo ambiental aparece quando os impactos ambientais atingem, primeiro e com mais força, justamente esses povos e comunidades que historicamente já vivem em situação de vulnerabilidade", define Martins. 

Essa leitura política encontra respaldo visual nas coberturas independentes de Paulo Henrique Costa, que documenta a precariedade estrutural das populações periféricas de Cruzeiro do Sul durante os picos de inundação e estiagem. 

"A gente vê coberturas imensas, por exemplo, quando acontecem alagações lá no Sul. Mas aqui no Acre você não vê isso na grande mídia, na mídia hegemônica. Então foi mais uma tentativa mesmo de reverter esse apagamento e trazer luz para esse debate".

Martins descreve a diversidade de linguagens mobilizadas pela rede de comunicadores para projetar a resistência do Juruá para além das fronteiras estaduais: 

"A comunicação popular entra justamente nesse contexto como uma ferramenta de denúncia e de mobilização". 

BR-364 e as fronteiras do isolamento

Para além das dinâmicas atmosféricas globais, as vulnerabilidades do Vale do Juruá estão historicamente atreladas a uma dimensão de isolamento logístico e desassistência geopolítica que potencializa os efeitos de qualquer desastre ecológico. 

A precariedade crônica da rodovia BR-364, única via de ligação terrestre entre Cruzeiro do Sul e a capital Rio Branco, atua como um gargalo estrutural que compromete a segurança alimentar, o acesso à saúde especializada e o desenvolvimento social das novas gerações, transformando o distanciamento geográfico em uma escolha de abandono político.

A escritora aponta que as dores do território decorrem de uma sobreposição de fatores excludentes: 

"Na verdade, tem muita coisa que me inquieta por aqui na minha região, que é o Vale do Juruá. Por exemplo, o avanço desse abandono sobre os territórios, principalmente sobre as populações tradicionais e mais periféricas". 

Esse quadro de desamparo é materializado na experiência diária da intrafegabilidade viária, que isola economicamente a sub-região do restante do país. Martins descreve o impacto psicológico e estrutural desse bloqueio logístico: 

"Só que, no caso do Vale do Juruá, o que mais me deprime mesmo é esse isolamento que a gente vive por conta da BR-364". 

As consequências desse bloqueio territorial são sentidas de forma imediata por Costa, cuja atuação documental independente é tolhida pelas barreiras econômicas impostas pela falta de conectividade viária e pelos custos abusivos das passagens aéreas na Amazônia Ocidental. Paulo explica que a produção de longo prazo na região exige um esforço financeiro individual que muitas vezes inviabiliza o aprimoramento técnico dos realizadores locais. 

"Geralmente eu vou sozinho, não tenho apoio de ninguém. Tudo o que eu faço é através do meu próprio recurso, porque essa fotografia que eu faço relacionada às questões das mudanças climáticas é um projeto de longo prazo", revela.

Já, o fotógrafo detalha as amarras geográficas que impedem o intercâmbio profissional: 

"Acho que é muito limitado aqui no Vale do Juruá, até mesmo por conta desse distanciamento geográfico. A gente não tem uma BR de qualidade para poder ir para Rio Branco, e as passagens são super caras para poder sair daqui para fazer alguma formação com alguém.”

Martins conclui demonstrando que o isolamento é um mecanismo de enfraquecimento político do território: 

"Já ouvi falar de pessoas que se mudam daqui por conta desse isolamento. Isso acaba afetando, na minha percepção, até o sentimento de pertencimento, principalmente dos jovens. Em muitos momentos eu vejo que parece que o Vale do Juruá fica esquecido pelo restante do país.”

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