Comunidades Eclesiais e a base do movimento social do Acre

Por Wellington Vidal

Caminhada pelas comunidades marcaram a trajetória de Chico Mendes na defesa das florestas

Defensores da vida e da floresta que foram mortos por suas lutas. Foto: Laianny Sena

Fé e ativismo ambiental estão interligados na Amazônia há décadas, por meio das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), da Igreja Católica e assessoradas pelo bispo Dom Moacyr Grecchi. Com um alto desempenho na organização social, essas comunidades se consolidaram como espaços de diálogo, formação e mobilização em defesa da vida, da justiça social e do cuidado com a natureza, o que dialoga diretamente com o legado de Chico Mendes.

As Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) foram uma organização social da igreja católica primordial para o fortalecimento sindical e a luta de Chico Mendes e seus companheiros na década de 70. A cientista social e assistente de projetos do Comitê Chico Mendes, Talita Vasconcelos conta como surgiu a relação das CEBS, com o ativismo ambiental.

“Em Xapuri, por exemplo, as reuniões dos seringueiros e seringueiras aconteciam dentro do salão paroquial e até hoje no Comitê Chico Mendes utilizamos esse espaço que carrega essa memória de resistência e luta, além disso em uma época na qual os seringueiros não tinham apoio do poder público, o bispo Dom Moacy Grechi foi a única autoridade que garantiu o apoio na luta”

Para Thalita, a relação entre fé, justiça social e defesa do meio ambiente é algo intrínseco à vivência cristã.

“Pra mim que sou católica desde criança é muito claro como a fé tem relação direta com a justiça social e a defesa da floresta”, afirma. 

A cientista social também chama atenção para os desafios contemporâneos enfrentados pelas CEBs. De acordo com ela, essas comunidades seguem resistindo em um contexto marcado pelo avanço do neoliberalismo, que tende a individualizar as relações e enfraquecer os laços sociais. Nesse cenário, avalia que é “mais do que necessário fortalecer as iniciativas comunitárias”, incentivando a solidariedade, o engajamento social e a defesa de condições de vida mais dignas para todos.

Partindo dessa perspectiva e aliado ao trabalho que o Comitê Chico Mendes exerce, a  Pastoral da Juventude da Igreja Santa Rita de Cássia realizou o 6º Retiro de Carnaval, entre os dias 13, 14 e 15 de fevereiro de 2026. Na ocasião, um dos momentos mais marcantes do encontro foi a homenagem a homens e mulheres que dedicaram suas vidas à proteção dos direitos humanos e da natureza, muitos deles mortos por defenderem causas sociais.

Poronga, instrumentos usados pelos seringueiros para iluminar o caminho na floresta. Foto: Laiany Sena

O momento aconteceu na madrugada do dia 14, entre os nomes lembrados esteve o de Chico Mendes, seringueiro, ambientalista, ativista e sindicalista acreano, assassinado em 22 de dezembro de 1988 por sua luta em defesa da Amazônia e dos povos da floresta.

Para o coordenador paroquial da Pastoral da Juventude, João Victor, tanto Chico Mendes, quanto a Irmã Dorothy que dedicou sua vida a defender a floresta tropical brasileira do esgotamento da agricultura e que também foi assassinada são referências de inspiração e esperança “Chico Mendes e Irmã Dorothy foram homenageados e lembrados durante esse momento, o retiro em suma teve como objetivo fazer um convite a olhar a nossa realidade e não ficar calado, pois nós jovens não somos o futuro, o amanhã, somos o hoje”, afirma.

Julio César, 13 anos, jovem que participou do retiro. Foto: Wellington Vidal

Ao longo da programação os jovens também tiveram um momento de reflexão sobre o cuidado com a natureza e os impactos da poluição, e ao recordar a trajetória de Chico Mendes, os jovens foram convidados a compreender que a fé cristã não se limita ao âmbito individual, mas se manifesta no compromisso com os mais vulneráveis e com a preservação da criação. A memória de Chico Mendes, nesse contexto, foi apresentada como exemplo concreto de alguém que viveu a defesa da vida como missão.

Júlio César, de 13 anos, que participou do retiro, afirma admirar a luta de Chico Mendes e relata sobre a experiência vivenciada nestes três dias.

“O encontro foi maravilhoso, pra mim foi um sentimento muito legal carregar a poronga usada pelos seringueiros, o momento em homenagem a Chico Mendes teve tudo haver com nosso encontro, ele defende a natureza e a gente também está refletindo e defendendo isso aqui, em favor dos jovens, das mulheres, e da natureza”, relata.

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