“O palco como trincheira”: Grupo dos Dez traz turnê de teatro com temas sociais; confira as datas

Por Tatiana Ferreira

Espetáculos do Grupo dos Dez levam ao palco reflexões sobre resistência, inspirando diálogo e transformação social

A arte negra resgata a ancestralidade, afirma identidades e transforma o corpo em narrativa cultural. Foto: Netun Lima/Cena Madame Satã

O Grupo dos Dez inicia sua turnê nacional em Rio Branco a partir de quinta-feira, 29 de janeiro, com espetáculos que abordam racismo, feminismo, homofobia e a valorização da cultura negra. A programação transforma a cidade em palco de reflexão e diálogo, evidenciando o impacto social do teatro negro.

A escolha da capital acreana carrega um significado simbólico e afetivo, conectando o palco à história, à memória e às lutas que atravessam o território amazônico. É com essa proposta que o grupo escolheu Rio Branco para abrir sua turnê nacional, transformando a capital acreana em ponto inicial de um projeto que celebra 15 anos de trajetória artística.

Uma estreia que carrega memória

O espaço que recebe a programação leva em homenagem o nome de João das Neves, dramaturgo e diretor brasileiro cuja trajetória se entrelaça com a história cultural do Acre. Na década de 1980, o artista viveu no estado, onde desenvolveu pesquisas sobre questões ambientais e povos indígenas, produzindo peças marcantes como “Tributo a Chico Mendes” (1988) e “Yuraiá – o rio do nosso corpo” (1990), inspirada na cultura do povo Huni Kuĩ. Seu projeto mais famoso, “Madame Satã”, atualmente o único ainda em cartaz, exemplifica o impacto que o artista almejava alcançar por meio do teatro.

Impacto cultural e artístico

A opinião de líderes culturais locais reforça a importância da iniciativa. Para Valéria Santana, coordenadora do Movimento Negro Unificado (MNU-Acre), a presença do grupo em circulação nacional representa mais do que uma agenda cultural. “Acolher produção artística de irmãos como a que o Grupo dos Dez propõe a Rio Branco nesses dias, que se conectam com nosso chão, fortalece a manutenção da produção artística local, que também é uma das nossas potências.”

Ela complementa a reflexão sobre o impacto da arte na sociedade:

“A arte nos chama à vida, nos toca, nos transforma, mexe com nossa força criativa, nos tirando do lugar de passividade e nos inspirando a amadurecer ideias.”

Valéria reforça ainda a força do teatro negro em circulação nacional:

“Ver em circulação nacional o teatro negro, que pro MNU tem a referência em Abdias do Nascimento, é de uma força revolucionária, sobretudo como forma de aquilombamento. Mas isso só acontece com políticas públicas que reconhecem na arte, e nesse caso específico, no Teatro, um caminho fundamental para o desenvolvimento social, pelas tantas oportunidades que oferece na formação de público, pelo trabalho reconhecido de profissionais da cultura e para a memória popular.”

João das Neves Crédito: Foto: Divulgação/Itaú Cultural

Formação, arte e protagonismo

A programação tem início no dia 29 de janeiro com o espetáculo “Dandara Para Todas as Mulheres” que coloca em cena o protagonismo da mulher negra e debate as múltiplas formas de violência e silenciamento enfrentadas ao longo da história.

Já “Madame Satã”, em cartaz nos dias 31 de janeiro e 1º de fevereiro, retrata a vida de João Francisco dos Santos, personagem histórico negro e homossexual que viveu à margem da sociedade carioca no início do século XX. Inspirada no texto de João das Neves, a obra aborda temas como racismo, homofobia e exclusão social em contextos de marginalização. 

O evento também reúne leituras de trechos da obra, apresentações musicais e a participação de artistas acreanos que trabalharam com o dramaturgo, além da cantora Titane, parceira de vida e criação de João das Neves por mais de duas décadas. 

Arte como compromisso social

Viabilizada por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura, com apoio do Ministério da Cultura e da Petrobras, a turnê envolve mais de 200 profissionais, em sua maioria pessoas negras, periféricas e LGBTQIAPN+. Além das apresentações, o projeto busca fortalecer o diálogo entre artistas e comunidades locais, descentralizando a produção cultural e valorizando narrativas historicamente invisibilizadas.

Após a passagem por Rio Branco, a circulação segue por cidades como Manaus, Salvador, Fortaleza, Recife, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, reafirmando o papel do teatro como instrumento de transformação social.

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