Viveiro da Chica transforma cultivo e saber da terra em sustento verde
Por Wellington Vidal
Com espécies nativas e conhecimento popular, Dona Francisca construiu renda, autonomia e legado ao longo de 20 anos
No “Viveiro da Chica”, Dona Francisca cultiva e vende de plantas ornamentais e medicinais que variam em média entre R$ 30 a R$ 10. Foto: acervo pessoal
“Segue teu destino, rega tuas plantas, ama as tuas rosas. O resto é sombra de árvores alheias.” A frase, atribuída ao escritor Fernando Pessoa, traduz a paixão, o cuidado e o afeto de Dona Francisca pela natureza, especialmente pelas plantas. Um amor cultivado ao longo de 20 anos de trabalho com a horticultura, que deu origem ao Viveiro da Chica, em Rio Branco.
Aos 64 anos, Francisca das Dores de Oliveira é uma mulher sorridente e entusiasmada que encontrou nas plantas mais do que uma profissão: um modo de vida. Ela conta que uma de suas principais dificuldades está relacionada ao fato de ser analfabeta, mas ressalta que isso nunca a impediu de seguir seus sonhos. “Eu sempre gostei de planta. Desde criança, elas foram minha paixão”, relembra.
De hobby a profissão
O ponto de virada aconteceu quando amigas a convidaram para participar de cursos na área. Sem receio, Francisca aceitou o desafio e iniciou uma formação que transformaria o antigo hobby em profissão.
“Eu passei por muitas dificuldades no começo, para aprender, conseguir terra e preparar um solo bem adubado. Mas, como foram muitos cursos, a gente vai aprendendo”, explica.
Após as primeiras capacitações, o processo de especialização se intensificou, e logo ela passou a se envolver na organização de feiras, atuando em parceria com a prefeitura local para estruturar pontos de venda de mudas.
Com o tempo, algumas colegas desistiram do projeto, mas Francisca permaneceu firme. “Eu nunca desisti. Para mim, trabalhar com plantas não é só profissão, é vocação”, afirma.
A dedicação é tamanha que nem mesmo as condições climáticas a desanimam. Seja sob sol forte ou chuva, ela segue cuidando e comercializando suas plantas.
Botânica diversificada
Além disso, Dona Francisca passou a cultivar tanto plantas ornamentais quanto medicinais. Entre elas, espécies populares como comigo-ninguém-pode e espada-de-são-jorge, ampliando o catálogo e valorizando espécies regionais da Amazônia.
Atualmente, ela domina todas as etapas do cultivo, do preparo do solo ao plantio. Com a segurança de quem aprendeu na prática, afirma: “Hoje eu sei preparar a terra, adubar e plantar”. Entre as espécies mais procuradas pela população de Rio Branco estão zamioculca, costela-de-adão e costela-de-eva, valorizadas principalmente pelo apelo decorativo.
O viveiro também se destaca pela etnobotânica, área das plantas medicinais que ocupa lugar central no trabalho de Francisca. Capim-santo, hortelã, arruda e pluma estão entre as espécies mais procuradas. Atenta às preferências do público, ela explica que o cultivo acompanha a demanda. “A gente planta o que o povo gosta. É uma satisfação muito grande poder fazer isso”, revela.
A vantagem das plantas nativas
A experiência acumulada ao longo dessas duas décadas trouxe aprendizados importantes, especialmente sobre a resistência das plantas nativas em comparação às espécies importadas. Dona Francisca conta que já tentou vender plantas de outras regiões, mas percebeu a dificuldade de adaptação. “Elas não são do nosso clima e acabam morrendo muito fácil”, explica.
Por outro lado, as espécies locais demonstram grande capacidade de adaptação. “As nossas, daqui da região, você planta até com areia, com adubo de palheira ou de pau, e todas se dão bem”, afirma, destacando um conhecimento construído no dia a dia.
Sustento verde e conhecimento para as gerações futuras
Mais do que uma paixão, a horticultura se consolidou como fonte de renda para Dona Francisca. Segundo ela, o cultivo e a venda de plantas garantem um complemento financeiro e fortalecem os laços criados ao longo do tempo, especialmente nas feiras, onde o contato com o público é mais próximo.
A dedicação diária faz parte da rotina. “A gente se apega às plantas. Tem dia que, se eu não faço uma muda, fico impaciente”, confessa.
Francisca também compartilha seus conhecimentos com pessoas próximas, mantendo viva uma tradição familiar. “Eu ensino, mostro como é que faz. Até para minhas netas. A Adrya gosta muito de plantar, tem esse gosto”, conta, orgulhosa ao perceber que o amor pela terra continua criando raízes nas novas gerações.
A paixão pelas plantas também a levou a dar visibilidade ao próprio trabalho, participando de entrevistas em rádio e televisão, onde conta sua história com entusiasmo e bom humor. Para ela, os desafios se assemelham aos espinhos de uma rosa: fazem parte da beleza do caminho. “Eu posso não saber falar muito bem, por ser analfabeta, mas para mexer com as minhas plantas, eu sei fazer de tudo”, declara.
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