Até quando vamos precisar marchar sob o sol por direitos que já são nossos?

Artigo de opinião por Samsara Nukini

Samsara Nukini durante o ATL 2026. Foto: Ila Verus

O Acampamento Terra Livre (ATL) de 2026 me marcou profundamente, mas não sem antes me confrontar com um vazio. É um sentimento de decepção que persiste ao perceber que nós, povos indígenas, ainda precisamos marchar sob o sol quente, enfrentar a sede e as chuvas fortes apenas para lembrar a este país e a este governo que nós existimos.

É doloroso ter que explicar o óbvio o tempo inteiro: que precisamos da nossa terra. É um pedaço de terra e, mesmo assim, temos que provar nosso direito sobre ela, sendo que já estávamos aqui muito antes de qualquer fronteira ser desenhada. Essa necessidade de provar nossa existência foi o que carreguei tanto na COP 30, em Belém, quanto agora no ATL. E sinto que essa dor não é só nossa. Senti com muita força o lado dos quilombolas, que também seguem exaustos, mostrando ao governo seus direitos.

A gente tem uma Amazônia preta neste país e isso não pode ser ignorado. É um fato real, dá para sentir. A COP 30, que foi minha primeira experiência em conferências climáticas, me trouxe essa percepção com força, mas não da forma que eu esperava. Fui em busca de esperança diante das mudanças que sentimos nos nossos territórios: a seca severa, as enchentes, a perda de nossas sementes e dos nossos parentes não humanos, como os peixes e animais. Saí de lá sem esperança. Saí muito triste.

Às vezes, o que fica é uma mistura de tristeza, decepção e um pouco de desânimo. Principalmente quando penso no poder que temos nas mãos e que nem sempre acreditamos: o poder de mudar as coisas através das nossas escolhas.

No ATL deste ano, porém, algo me atravessou de verdade. Entre tantos momentos de luta, ouvir sobre a importância do nosso papel na política e entender o voto como uma ferramenta de guerra foi transformador. Fortalecer a "bancada do cocar" não é apenas um slogan, é uma urgência que precisa chegar aos jovens dentro dos nossos territórios. Votar consciente, votar em quem defende nosso povo e não desperdiçar esse poder é o que vai garantir que o futuro não seja decidido apenas por quem está em salas fechadas.

Foi potente ver tantos jovens participando pela primeira vez, ocupando esse espaço que mistura luta, arte e união. O ATL é o nosso grito coletivo de resistência. Embora a gente ainda se pergunte até quando precisaremos marchar por direitos que já são nossos, uma fala específica ficou guardada no meu coração: a de que, quem sabe um dia, a gente se encontre no ATL apenas para celebrar. Celebrar as terras finalmente demarcadas e as vitórias conquistadas.

Essa imagem me emocionou. Espero, de verdade, que este último acampamento tenha despertado na juventude indígena a responsabilidade de transformar o momento político em mudança real. Que a força do nosso voto seja o caminho para que, no futuro, nossa marcha não seja mais por sobrevivência, mas por celebração.

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