Escazú para que ninguém mais perca seu pai
Artigo de opinião por Angela Mendes
Líder seringueiro, patrono do Meio Ambiente, acreano, Chico Mendes. Foto: Pilly Cowell
O Acordo de Escazú é um dos instrumentos mais importantes da América Latina e do Caribe para a defesa do meio ambiente e dos direitos humanos. Entre seus principais objetivos está a proteção de ativistas e defensores socioambientais, pessoas que, todos os dias, colocam o próprio corpo na linha de frente para proteger a terra, a floresta, a água e a vida.
Então, quando se fala em proteção a ativistas e defensores e defensoras socioambientais, eu não falo de um conceito abstrato ou de uma teoria, eu falo da ausência do meu pai, falo de uma cadeira vazia, de uma vida interrompida, de um futuro que nos foi roubado. Chico Mendes, meu pai, foi assassinado porque ousou defender a Amazônia, os povos da floresta e a ideia de que não existe justiça social sem justiça ambiental. Sua morte não foi um acidente da história, mas consequência direta da ausência de proteção do Estado diante de ameaças conhecidas.
Décadas depois, o país continua repetindo esse mesmo roteiro de violência contra quem ousa defender o bem comum, o que mudou foram os nomes. As ameaças, o silêncio imposto pelo medo e a impunidade continuam os mesmos.
Escazú dialoga diretamente com essa história. Ele afirma, de forma inequívoca, que defensores e defensoras não podem ser deixados sozinhos, precisam de apoio real. Reconhece que o Estado tem responsabilidade em protegê-los e que não há democracia nem política ambiental possível quando a vida dessas pessoas é tratada como descartável.
É nesse contexto que o Acordo ganha um significado profundo e urgente. Não se trata apenas de um tratado internacional. Escazú reconhece, de forma categórica que defensores e defensoras precisam ser protegidos. Reconhece que o Estado tem responsabilidade direta quando essas pessoas são ameaçadas, criminalizadas ou assassinadas. Isto é algo que o meu pai nunca teve em vida e que talvez tivesse feito toda a diferença.
A aprovação do Acordo de Escazú na Câmara Federal reacende uma esperança, mas ela ainda é frágil enquanto o texto segue parado no Senado Brasileiro. Cada dia de adiamento é um recado perigoso para quem está na linha de frente hoje: de que suas vidas seguem sendo negociáveis.
Aprovar o Acordo de Escazú é mais do que ratificar um tratado internacional, é um ato de coragem política e de humanidade. É transformar dor em responsabilidade, memória em compromisso, e luta em política pública, é honrar a memória de Chico Mendes e de tantos outros e outras que tombaram defendendo a Amazônia. É afirmar que proteger a floresta não pode continuar sendo uma sentença de morte e que nenhum filho, nenhuma filha, precise crescer aprendendo que defender a Amazônia pode custar a vida de quem a ama.
A memória de Chico Mendes não pode servir apenas para homenagens. Ela exige compromisso.
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Artigo de opinião por Angela Mendes