Para quem é que a gente está abrindo a porta da nossa casa?

Artigo de opinião por Unhepa Nukini

Unhepa Nukini no Festival Jovens do Futuro 2026. Foto: Hannah Lydia

Nos últimos meses a gente tem visto posturas de pessoas que estão nesse cenário político, posturas bem críticas em relação ao nosso direito, ao nosso território e ao nosso modo de vida. A Rede de Comunicadores Indígenas do Acre vem se pronunciar após dias dessas declarações com sentimento de repúdio sobre esses políticos, principalmente sobre o ex-prefeito de Rio Branco, Bocalom, e também o atual governador, juntamente com o Márcio Bittar, que entrou em alguns territórios muitas das vezes sem consultar as lideranças gerais dessas terras.

A primeira fala que a gente ouviu ao decorrer desse ano, que é muito importante para as discussões políticas, foi do ex-prefeito Bocalom, que está saindo como candidato ao governo, onde ele fala que indígena “não quer viver mais na mata e comer bicho”, e que os nós queremos acesso à internet e à educação. O mais pesado é que nesse discurso o Bocalom disse que vai abrir estrada dentro dos territórios, dentro das reservas extrativistas e dentro dos assentamentos.

Hoje não se fala mais "índio", e o próprio candidato ao governo do estado do Acre ainda não pegou essa pronúncia. Quando o Bocalom pronuncia que estrada vai trazer riquezas para os nossos territórios, desenvolvimento, a gente entende que não, porque já tem várias experiências de estradas que saíram dentro de territórios e não foi nada para frente. 

Esse leão escuro que só traz destruição para a natureza marcou o território do Parque do Katukina, onde a BR-364 passou dentro desse território, matou igarapés, matou fontes de renda, derrubou e matou medicinas. O que a gente vê hoje dentro do território do Parque do Katukina é a falta do peixe nativo da floresta, que era uma sustentabilidade que a própria natureza trazia. 

O semblante de uma pessoa dessas governando o nosso estado é um semblante de muita vergonha, de muita vergonha. Um político que se diz tão estudioso, tão conectado, tão sábio, não entender que o caminho não é esse, não respeitar os nossos direitos, o nosso modo de vida e os nossos protocolos de consulta que existem dentro dos nossos territórios, dentro do modo de cultura de cada povo dessa região não pode acontecer.

A gente sabe os direitos de todos os espíritos que moram dentro desse campo da floresta amazônica do estado do Acre. A gente diz que o cenário político de Márcio Bittar, de Nikolas, que chegou aí também no estado fazendo vergonha, zombando. Porque quando um deputado como Nikolas chega dentro do nosso território acompanhado do Márcio Bittar e vai se pronunciar em relação às nossas mulheres que estão precisando de batom e outras coisas a mais, isso é um sinal muito grande de desrespeito à vida, ao modo de cultura de cada povo.

A gente sabe que tem uma sensibilidade de algumas lideranças de base que permitiram que esses políticos de direita entrassem dentro dos nossos territórios também. E a gente, como liderança, tem que estar avaliando esse cenário político. Qual é a política que a gente está trazendo para dentro do nosso território? Realmente, será que a gente está abrindo as portas para os políticos que estão defendendo a nossa pauta?

A gente repudia todo o ato do Nikolas também, que veio generalizar os povos indígenas. Quando ele fala que os caciques estão saindo para fora do país, que estão indo em viagens internacionais, e que os seus povos estão com fome e morrendo de fome no território, quando a gente olha o semblante do estado do Acre, a gente vê essa contrariedade. Não são todos os povos que estão nessa situação, e os povos que estão passando por isso é por falta de assistência política, mas uma assistência política pensada pelos líderes, pensada pela comunidade, para ter uma sustentabilidade de qualidade que não seja a sustentabilidade do boi, da bancada do boi, os maquinários destruindo tudo. 

A gente vê que esse deputado não conhece nada do estado, ele não conhece nada de todos os territórios. Não se pode falar isso com base em uma ida a uma aldeia ou a uma comunidade. A gente tem que conhecer todas as estruturas das organizações não governamentais atuando dentro dos nossos territórios, dentro das aldeias, pra gente poder falar sobre isso. 

E a gente ainda se envergonha mais porque é um parlamentar que traz outro deputado de Minas Gerais para o nosso estado. A gente sente que já chegou o ciclo final de Márcio Bittar entre os nossos territórios. É um cara que não pensa em política, só pensa em estrada, e a gente sabe que estrada não vai trazer soluções. Então, a gente afirma para Márcio Bittar, Bocalom e Nikolas que a direita não vai se estabilizar no nosso estado. A gente está aqui em uma união muito forte, desde as lideranças, da espiritualidade, das medicinas, para defender a nossa terra, para defender a casa dos nossos filhos. 

A gente defende cada território por conta que tem uma geração que vai dar continuidade na história das nossas ancestralidades, que vai precisar desse espaço. Um espaço que tem liberdade para correr, para caminhar, para andar, para plantar, para semear, para contar história, para praticar uma educação diferenciada em consenso com a natureza. A partir disso, hoje temos um cenário político muito da direita e a gente aqui afirma que esse ano é um ano decisivo da política, dos parlamentos, onde a gente pode também colorir o congresso com nossos rostos marcados de urucum.


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