Falar de empoderamento feminino nas comunidades extrativistas ainda é falar é resistência
Artigo de opinião por Marta Jane*
Marta Jane é estudante de Enfermagem e integrante do Projeto Rede de Mulheres da Floresta do Comitê Chico Mendes. Foto: Hannah Lydia
Participar do projeto da Rede de Mulheres da Floresta foi um reencontro com a minha raiz, com a nossa história e com a força ancestral das mulheres que sustentam a floresta e seus territórios. Nas comunidades extrativistas, falar de empoderamento feminino ainda é falar de resistência.
O caminho para que as mulheres assumam a liderança é historicamente travado por barreiras profundas: a sobrecarga dupla (ou tripla) do cuidado com a casa, com os filhos e com o roçado, somada a uma cultura que teima em colocar o homem à frente das decisões coletivas, das associações e dos sindicatos.
Muitas vezes, é a mulher extrativista quem melhor conhece o ciclo da castanha, do açaí e da borracha. É ela quem garante a renda miúda que sustenta o mês. No entanto, na hora da reunião, da assinatura ou da fala pública, o convite velado ainda é para que ela permaneça em silêncio.
Romper esse ciclo exige coragem. Significa ocupar a linha de frente, mesmo com medo, e provar que cuidar da floresta e da comunidade também é fazer política.
Outro ponto que me toca profundamente é a partida dos jovens de seus territórios. Assim como eu, muitos saem em busca de novas oportunidades e do sonho da faculdade. Hoje, curso Enfermagem e sei o quanto estudar fora abre portas. O grande problema, contudo, é que nessa transição muitos jovens acabam se perdendo de si mesmos.
A cidade, a universidade e o ritmo urbano operam um apagamento silencioso da identidade de quem nasceu na floresta. Sem o orgulho da própria origem, a tendência é o não retorno. E o questionamento que fica é doloroso: sem a juventude, quem dará continuidade ao extrativismo, ao manejo sustentável e à luta pela terra?
Precisamos urgentemente, construir pontes. A universidade jamais deveria ser sinônimo de desenraizamento; pelo contrário, ela precisa ser a ferramenta que capacita o jovem a voltar para o seu território munido de conhecimento, saúde e projetos para defendê-lo.
Ser enfermeira e ser extrativista não são identidades separadas. É plenamente possível cuidar do povo da floresta com o diploma na mão. O desafio é imenso, mas a transformação começa quando assumimos quem somos e nomeamos o nosso espaço no mundo:
Sou mulher. Sou mãe. Sou extrativista. Sou estudante. Sou o futuro.
*Este texto faz parte das entregas finais do projeto Rede de Mulheres da Floresta, do Comitê Chico Mendes, financiado pela Fundação Ford.
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Artigo de opinião por Marta Jane