“O cocar e a poronga”: Boi-Bumbá de Rondônia cria enredo sobre a aliança entre seringueiros e indígenas

Esta é a série especial, “Os bois que amamos”, do Comitê Chico Mendes durante o mês do Festival de Parintins

Flor do Campo é um dos bois tradicionais de Rondônia. Foto: Acervo Boi-Bumbá Flor do Campo

Em Guajará-Mirim, cidade onde as águas dos rios Mamoré e Pacaás Novos se encontram, o Boi-Bumbá Flor do Campo prepara um retorno carregado de simbolismo para o biênio 2026-2027. Sob a presidência de Esterlina Cunegundes, a agremiação, conhecida como o "Boi da Estrela", traz para a arena do Duelo na Fronteira o enredo "Aliança do Cocar e da Poronga: antes inimigos, hoje unidos pela casa comum"

O tema busca iluminar um passado de dores para celebrar uma união contemporânea necessária. A narrativa foca no encontro entre dois povos que hoje são os guardiões da floresta: os indígenas (o Cocar) e os seringueiros (a Poronga). Historicamente, a exploração do látex e a construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré colocaram esses grupos em lados opostos.

"O que a gente sintetizou e retrata aqui é que, no período em que iniciou essa exploração, esses dois povos brigaram", explica Cunegundes. 

A presidente reforça que o impacto foi devastador para as populações originárias: 

"Teve etnias que quase foram dizimadas nesse conflito, tanto pelas doenças, que causaram muita morte, quanto pela própria briga por território”. 

Enquanto os indígenas buscavam manter seu espaço e harmonia, os exploradores chegavam com objetivos distintos: "vieram para explorar, para tirar o látex, para derrubar e construir estrada de ferro". Utilizando a mão de obra precária de seringueiros.

Enredo contará a história da aliança entre seringueiros e indígenas. Foto: Boi-Bumbá Flor do Campo

A “casa comum”

O diferencial deste enredo é a sua conexão com a realidade socioambiental do século XXI. O Flor do Campo quer mostrar que a floresta, antes palco de disputas, hoje é a "casa comum". O ponto alto da apresentação será a união desses povos em torno da preservação. 

"O que combina com o que queremos trazer hoje está fundamentalmente ligado ao fato de que esses dois povos, atualmente, se uniram em defesa da floresta", pontua a presidente.

A proposta artística será dividida em duas noites, utilizando figuras típicas para contar essa trajetória:

  • Primeira noite: Focará na ancestralidade e na chegada da poronga. A figura típica será o Defumador de Borracha. "Trazemos um momento bem impactante com o ser místico, que surge como um presságio no início e anuncia, dentro da aldeia... que haverá morte e destruição". A narrativa passará pela construção da ferrovia e a lenda do "Trem das Almas": "dizem que muitas pessoas veem e ouvem o apito do trem com as almas de quem morreu ali dentro".

  • Segunda noite: O clima de tensão dá lugar à alegria do pacto. Será apresentado o Ritual do Guarupi e a lenda do Boitatá. O objetivo é mostrar que, após a união, "o protetor continua com os olhos atentos a todas as demandas". A agremiação também exaltará as influências indígenas na alimentação e a herança nordestina nos folguedos e festas juninas.

Esterlina adianta que juventudes e resistência encantam o enredo deste ano. Foto: Boi-Bumbá Flor do Campo

Valorização regional

Esterlina defende que o papel do boi-bumbá vai além do entretenimento, alcançando o valor social, especialmente em uma cidade de fronteira como Guajará-Mirim, que enfrenta carências de políticas públicas. 

"Os nossos jovens são os mais atingidos. Eu sempre vi no desenvolvimento desse trabalho essa ponte fundamental para manter eles com essas atividades que a cultura traz".

A presidente é firme em sua filosofia de valorização do que é local: 

"Eu costumo falar para os colegas que a gente não tem por que ficar contando história do mundo ou do resto do país se a gente tem história na nossa região, e muita história.” 

Ela lembra que Rondônia possui a maior concentração de etnias indígenas e que Guajará-Mirim é um epicentro de diversidade. 

"A gente fala muito de diversidade cultural e miscigenação na nossa região, mas esquece que a base, a essência mesmo, são os povos originários e os seringueiros.”

Boi-bumbá é cultura amazônica presente no Acre. Foto: Boi-Bumbá Flor do Campo

Desafios e resistência administrativa

Apesar do brilho do projeto, o Flor do Campo enfrenta obstáculos severos. Após um hiato de dez anos sem festival, a retomada em 2023 ainda sofre com a falta de apoio governamental efetivo. Esterlina critica a visão da administração pública, classificando-a como "puramente política e eleitoreira". 

"O município também reconhece como patrimônio, mas nenhum desses dois entes públicos sai em defesa.”

As agremiações precisam "correr com o pires na mão, mendigando um dinheiro aqui e outro ali". Por isso, o Flor do Campo adotou uma postura de independência, buscando patrocinadores e realizando eventos próprios. A decisão da diretoria é clara: 

"Se as coisas não acontecerem com transparência, com lisura e com a garantia de que o resultado será decidido dentro da arena, a gente não vai. Diremos não para o Estado.”

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