Encontro de Artivismo dos Povos da Floresta une povos da Amazônia discutindo clima, eleições e territórios
Evento marcou o início de uma articulação que entrelaça a profundidade das florestas com a urgência das periferias urbanas brasileiras
Participantes se unem em rituais tradicionais e na execução do Hino do Seringueiro durante a abertura do Encontro de Artivismo dos Povos da Floresta. Foto: Vitor Ian
O Encontro de Artivismo dos Povos da Floresta, organizado pelo Comitê Chico Mendes e pela Aliança dos Povos pelo Clima, apoiados pelo WWF-Brasil e projeto SIDA, reuniu ativistas, comunicadores, lideranças indígenas, extrativistas e quilombolas durante os dias 15, 16 e 17 de junho. O evento uniu arte, cultura e comunicação digital como ferramentas de incidência política e climática frente aos desafios que se desenham para as eleições.
Tudo começou sob a condução de rituais tradicionais que resgatam a memória coletiva da floresta. As vozes dos participantes uniram-se inicialmente na execução do Hino do Seringueiro. A mesa "Aliança dos Povos da Floresta: Memória, luta e continuidade" resgatou o pacto político histórico firmado no final da década de 1980 entre povos indígenas e seringueiros, grupos que historicamente disputavam territórios, mas que compreenderam que possuíam o mesmo inimigo comum: o avanço do desmatamento predatório e a especulação fundiária.
A primeira palestrante foi Julia Feitoza, ativista de 71 anos com uma longa trajetória nos movimentos de direitos humanos, movimento negro e ambientalismo. Feitoza participou diretamente do 1º Encontro Nacional de Seringueiros em Brasília, evento histórico coordenado por Chico Mendes que serviu de incubadora para a articulação da Aliança dos Povos da Floresta em 1987.
"Não é possível viver na área urbana sem a floresta", sentenciou Feitoza.
Ativistas participam de dinâmicas de integração e relaxamento conduzidas pela palhaça quilombola Jacinta no último dia do evento. Foto: Vitor Ian
Alianças
Feitoza relembrou marcos jurídicos fundamentais decorrentes dessa união, como a criação da primeira Reserva Extrativista (Resex) do Alto Juruá em 1990, um modelo inédito de reforma agrária sustentável que posteriormente estendeu-se para outras modalidades, incluindo as reservas marinhas. Contudo, a ativista alertou que as conquistas do passado exigem manutenção constante e novas estratégias.
A criação do Comitê Chico Mendes, estruturado logo após o assassinato do líder seringueiro em dezembro de 1988, foi apontada como um símbolo de continuidade institucional e civil da luta, destacando também o papel histórico de aliados como Luiz Inácio Lula da Silva e Wilson Pinheiro.
"Temos que nos incomodar, e temos que ir para a luta. A Aliança dos Povos da Floresta não é apenas memória, mas um projeto vivo", declarou Feitoza.
A veterana enfatizou que o espírito da aliança permanece urgente para combater a desinformação massiva e mitigar as consequências climáticas globais que afetam indistintamente os moradores da floresta e dos centros urbanos. Ela classificou o movimento histórico como um "pacto de sangue entre os companheiros e companheiras que deram sua vida lutando".
Integrantes dividem-se em comissões operacionais durante a oficina "Ativismo como Ferramenta de Incidência" para desenhar produtos de comunicação alternativa. Foto: Vitor Ian
Complementando a reconstrução histórica, Siã Huni Kuin, militante e cineasta indígena, compartilhou como se organizou diretamente ao lado de Chico Mendes para unificar as frentes de resistência. Siã explicou que a consolidação da Aliança foi um passo de sobrevivência estritamente necessário, uma vez que as grandes corporações agropecuárias e os consórcios latifundiários contavam com o aparato governamental e policial a seu favor durante o período da ditadura e da redemocratização. Jefferson Tupari, de Rondônia.
"A mensagem interessante a ser levada sobre o que aprendemos é que devemos ocupar espaços, cobrar e entender as diferenças. Se conectar com as pessoas, com outros territórios.”
O resgate das metodologias tradicionais de transmissão de conhecimento foi o foco de Anderson dos Santos, apelidado de Ganga, que alertou para os riscos da assimilação cultural urbana desregrada:
"A gente perdeu a oralidade dentro dos territórios, o que eu vi hoje me remeteu muito a minha vó, onde a galera se reúne, ouve. Eu levo a oralidade, o espírito de luta. Precisamos ocupar esses espaços".
Mesa de debate analisa os macrodesafios geopolíticos, as pautas territoriais e a importância da alfabetização política para as Eleições 2026. Foto: Vitor Ian
Eleições
No segundo dia, 16, marcou a transição do diagnóstico sociocultural para a análise conjuntural institucional. O painel "Eleições 2026 e Amazônia" abriu os debates do segundo dia, situando as responsabilidades dos ativistas diante do processo eleitoral nacional que se avizinha. A coordenadora-geral, Vera Olinda, iniciou os trabalhos estabelecendo um nexo direto entre o discurso ético e a prática cotidiana interna das organizações:
"O que a gente fala tem que tá junto com o que a gente faz, temos fé de transformar o mundo".
O debate central, composto por Waleska (Wal) Queiroz, analista de conservação do WWF Brasil e “cria” do bairro periférico Baixa da Terra Firme, em Belém, e Mathaus Torres, especialista formado em Relações Internacionais. Em sua exposição inicial, Queiroz resgatou sua vivência pessoal em contextos de alta vulnerabilidade social na periferia de Belém para explicar seu despertar político.
"Precisamos fazer uma análise das candidaturas, precisamos entender os candidatos, se estão se aliando com nossas pautas, precisamos saber muito bem quem são", disse a analista.
Delegações planejam a adaptação das estratégias unificadas preenchendo os cadernos de "Plano de Ação Territorial". Foto: Vitor Ian
Torres centrou sua análise nos macrodesafios geopolíticos e estruturais do Brasil contemporâneo, destacando a severa polarização política consolidada entre as forças lideradas por Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro. Mathaus classificou a estrutura de oposição como uma "máquina de desinformação, mentiras e fake news" que atua de forma sistemática para desmobilizar o debate racional. Diante desse cenário, propôs a alfabetização política das bases como contraofensiva prioritária.
"Onde que a gente vai colocar nosso olhar, depositar nossa força e nosso gás? Trabalhar agendas de priorização", questionou Mataos, indicando que o movimento social precisa afunilar suas demandas para obter vitórias legislativas concretas.
A segunda metade do dia transformou as análises teóricas da conjuntura eleitoral em um laboratório prático de criação de mídias alternativas através da oficina "Ativismo como Ferramenta de Incidência". A plenária dividiu-se em comissões operacionais de dez integrantes com a missão de desenhar produtos de comunicação ou propostas de ações diretas adaptadas às suas respectivas realidades geográficas.
A ativista Julia Feitoza, de 71 anos, destaca a criação das Reservas Extrativistas e a continuidade do projeto vivo da Aliança dos Povos da Floresta. Foto: Vitor Ian
O início da tarde de terça-feira foi marcado por uma fala forte de Angela Mendes, presidenta do Comitê Chico Mendes. Ela situou a urgência das alianças coletivas diante de um sistema socioeconômico de matriz opressora e individualista. Relembrou que o pacto atual nasce de um contexto de violência e impunidade muito semelhante ao enfrentado por Chico Mendes na década de 1980, mas apontou a mobilização atual da juventude como a resposta viva a esse cenário de crise.
"Afeto, cuidado e solidariedade são sentimentos que andam tão esquecidos. O futuro só é possível se a gente entender que a nossa melhor ferramenta de luta somos nós, é a nossa união, nossa aliança. A solução somos nós trabalhando coletivamente. Só vamos conseguir transformar a sociedade se mudarmos o cenário político que a gente tem. Que a gente possa manter sempre o olho no futuro, nossas ações focadas no futuro, mas nos inspirando em quem veio antes, que cravou marcos importantes para nossa história".
Artivismo
A manhã de quarta-feira, 17, começou quebrando a tensão política acumulada por meio de dinâmicas de integração conduzidas pela palhaça quilombola “Jacinta”. Utilizando brincadeiras coletivas e uma dinâmica musical de declarações de afeto, a artista promoveu um espaço de relaxamento mental, preparando o grupo para a etapa decisiva de escolha dos projetos de incidência.
Ativistas realizam Tour Cultural guiado pelo Centro Histórico de Rio Branco para conhecer os marcos da luta dos seringueiros e da Revolução Acreana. Foto: Vitor Ian
Raquel Rosenberg reassumiu a condução dos trabalhos para a apresentação formal dos planos estruturados pelas seis comissões unificadas do encontro. Após a exposição detalhada de cada projeto, o encontro abriu um intervalo regulamentar para que os participantes pudessem votar individualmente nas táticas que consideravam prioritárias para receber financiamento e apoio logístico do movimento.
Com o resultado consolidado, a plenária estruturou comissões de trabalho específicas para cada uma das grandes linhas de ação aprovadas, elegendo ativistas como "guardiões" responsáveis pela execução dos planos.
A etapa final dos trabalhos internos consistiu na divisão dos participantes por delegações de seus respectivos territórios de origem. Cada delegação recebeu um caderno de "Plano de Ação Territorial" contendo a missão de adaptar a estratégia geral unificada às restrições orçamentárias, riscos políticos locais e calendário de suas regiões de base.
Programação convocou a juventude para a mobilização coletiva e o afeto como ferramentas de luta. Foto: Vitor Ian
O fechamento do encontro foi conduzido por Txane Pistyani Nukini, reunindo todos os presentes em uma grande roda de canto coletivo e defumação tradicional. Angélica Mendes proferiu a fala de encerramento oficial do evento, resgatando o conteúdo da histórica carta deixada por Chico Mendes direcionada aos jovens do futuro:
"A gente precisa ter fé, ter esperança, muito obrigada".
Visita ao centro histórico de Rio Branco trouxe a memória das frentes de resistência ao lado de Chico Mendes. Foto: Vitor Ian
A ativista Angela Mendes somou-se às considerações finais, agradecendo o empenho técnico e político de todas as delegações presentes e deixando uma diretriz clara para o período de campanha nas ruas:
"A nossa luta precisa ser coletiva, realizando boas parcerias".
O encontro encerrou suas atividades formais com a realização de um tour Cultural guiado pelo Centro Histórico de Rio Branco, permitindo aos ativistas vindos de outras regiões do país conhecer de perto os monumentos, praças e marcos históricos que contam a história da Revolução Acreana e da luta dos seringueiros.