“Posso afirmar com certeza, era ele”: conheça a história do encontro entre Chico Mendes e Che Guevara
Lideranças históricas da América Latina tiveram troca rápida na década de 60
Ernesto Che Guevara e Francisco Alves Mendes Filho, o Chico Mendes: duas lideranças históricas que transformaram os movimentos sociais da América Latina. Foto: Reprodução/Internet
Ernesto Guevara de la Serna, mundialmente abreviado para Che, nasceu a 14 de junho de 1928 em Rosario, na Argentina. Francisco Alves Mendes Filho, também apelidado, mas de Chico, nasceu em 15 de dezembro de 1944 no seringal Porto Rico, em Xapuri, no Acre. Filho de Maria Rita e Francisco, seu pai era migrante nordestino chegado ao Acre durante o primeiro Ciclo da Borracha (1877 a 1910). Já Che era filho mais velho de Ernesto Guevara Lynch e Celia de la Serna.
Os dois, desde pequenos, tiveram o hábito da leitura presente e incentivado, o que encaminhou a luta deles para outro patamar. Chico Mendes e Che Guevara, ao seu modo e contextos distintos, se tornaram lideranças históricas para o movimento social da América Latina. Um território em disputa, até os dias de hoje, como noticiado a alguns meses atrás. Um varadouro pavimentado por amigos e lideranças como Alberto Granado, na Argentina, ou Euclides Fernandes Távora, em Xapuri.
“Quando começaram, o Chico passou a ser o porta-voz da proposta das reservas extrativistas, que tinha sido lançada no Primeiro Encontro Nacional de Seringueiros, em 1985”, remonta Gomercindo Rodrigues, o Guma, advogado e companheiro de luta de Chico Mendes.
O seringal Porto Rico, em Xapuri, no Acre, berço do líder seringueiro que transformou a defesa da floresta em um movimento global. Foto: Acervo Comitê Chico Mendes
Varadouros da América Latina
Chico passou a ser o principal porta-voz da luta seringueiro, a partir da década de 70. Guma relembra que o líder seringueiro defendia as Reservas Extrativistas, como um modelo de desenvolvimento para a Amazônia e de reforma agrária para a Amazônia.
“Quando ele começou a falar isso como porta-voz, a primeira reação dos ecologistas, dos verdes, digamos assim, daqueles militantes ecologistas do Rio, especialmente do Rio, a primeira reação foi dizer que não dava certo. Que o ser humano é predatório. Então a conservação da floresta mantendo gente dentro não daria certo, que iam destruir tudo”, relembra.
E aí Chico dizia: “mas nós estamos lá!”. Os seringueiros estão lá, os indígenas estão lá há milhares de anos, os seringueiros há mais de 100 anos, estão lá na floresta e não destruíram, diz o entrevistado.
“E a floresta está em pé exatamente por isso, porque a gente está lá”, reitera.
O entroncamento a 12 quilômetros de Xapuri, local exato onde Chico Mendes e Che Guevara cruzaram seus caminhos na década de 1960. Foto: Alice Leão
A vitória da Revolução Cubana foi um dos principais motores para a grande discussão sobre reforma agrária que ocorreu no século passado em solo brasileiro. O revolucionário foi próximo de diversos nomes da luta sindicalista brasileira, como Marighella e de presidentes, como Jânio Quadros, que o condecorou com a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul, a mais elevada comenda atribuída pelo Estado brasileiro a personalidades estrangeiras.
Porém, uma revolução armada na Amazônia era difícil articular, segundo Raimundão Mendes:
“Levando em consideração que fazer uma luta armada aqui na Amazônia, o exército, como aconteceu quando os companheiros vieram, acho que alguns de vocês, nos livros que leram, souberem ou melhor sabem, que vieram mais de 60 jovens ali, médico, enfermeiro, professores, eles se deslocaram do Rio, de São Paulo, e vieram para a Amazônia, e foram para a região do Pará.”
E quando o exército brasileiro soube, eles usaram táticas para descredibilizar todas as revoluções socialistas debaixo da Linha do Equador. Ao longo dos anos, Che Guevara visitou o Brasil por quatro vezes documentadas, em junho de 1952, maio de 1959, agosto de 1961 e novembro de 1966. E, pelo que o próprio Chico conta, nesta última vez, eles dois se encontraram.
Imagem ilustrativa dos varadouros e trilhas que cortam a fronteira com a Bolívia, rota que o revolucionário argentino pretendia explorar. Foto: Elson Martins
Encontro no entroncamento
Em entrevista para Pedro Vicente Costa Sobrinho, Chico Mendes lembra que não conhecia Guevara e nunca tinha o visto nos jornais, apenas ouvido seu nome nas rádios. Até que, um dia, sentado no entroncamento, a 12 quilômetros de Xapuri, um homem, vindo das bandas de Rio Branco, puxou conversa com ele e todos que estavam do seu lado.
“Falou que tinha interesse em conhecer a selva amazônica, principalmente os seringais e a selva boliviana. Indagou se eu era seringueiro, respondi que sim e já há muitos anos. Perguntou se não gostaria de acompanhá-lo até os seringais da Bolívia, pois não tinha costume de caminhar na selva. Precisava de uma pessoa que conhecesse os varadouros e o levasse na direção da fronteira. Dava para identificar que não era brasileiro, misturava um pouco de português com o espanhol.”
Ele ofereceu jóias, que usava para vender e ganhar alguns trocados para conseguir sobreviver ao percurso, mas que, ao escutar Chico, ofereceu o tanto que o seringueiro quisesse para que ele o acompanhasse na continuação de seu caminho para a Bolívia. Chico não aceitou o convite.
Gomercindo Rodrigues, o Guma, detalha a articulação de Chico Mendes na defesa das Reservas Extrativistas como modelo de reforma agrária sustentável. Foto: Memória Viva, Rainforest Journalism Fund, em associação com o Centro Pulitzer
“Alguém me disse que era perigoso, podia ser um bandido. Não acreditei, mas não podia ir. Alguns meses depois, em Xapuri, passei diante da delegacia de polícia e um retrato me chamou a atenção. Havia um cartaz, nele anunciava-se um prêmio de 50 milhões de pesos a quem entregasse o terrorista Che Guevara, vivo ou morto.”
Por conta da grande propaganda anti-Revolução Cubana, Chico ficou com medo de ser associado a um “terrorista”, mas olhou várias vezes o retrato que avistou na delegacia, mas não levou para casa, nem nada.
“Tempos depois, ao ler o livro sobre a guerrilha do Che na Bolívia, reafirmei a convicção de que cruzei com ele. Posso afirmar com certeza, era o Che.”
Raimundão Mendes resgata a memória sobre o impacto das ideias revolucionárias na organização e união das bases seringueiras na Amazônia. Foto: Hannah Lydia
Raimundão confirma essa “rápida conversa” entre os dois. E conta que, o livro que Chico citou na entrevista para Costa Sobrinho foi “A Ilha”, que conta a trajetória de luta que teve Fidel, Che Guevara e Raul, que é irmão do Fidel, durante os anos de chumbo. Pouco tempo depois, já perseguido pela agência de inteligência dos Estados Unidos (CIA), Guevara foi emboscado e capturado, sendo fuzilado em 9 de outubro de 1967.
Ecos do passado
Para os entrevistados, todo o calor causado pelos líderes revolucionários cubanos se mantiveram vivos e fortes para tudo que os seringueiros defendem até os dias de hoje. Para Raimundão:
“Aonde chegou um pouco desse calor para nós, a gente viu que não dava sucesso.”
Líder revolucionário, Che Guevara foi capturado e executado por militares da Bolívia treinados pelos EUA. Foto: Acervo O Globo
Gomercindo Rodrigues deixa claro que Chico e Che foram assassinados por defender ideias que não “interessam ao grande capital". Lembrando que, atualmente, o agronegócio é o principal inimigo nessa luta de narrativas, além da fome e o avanço das big techs. O advogado conta que, caso nomes como Chico, Martin Luther King e Gandhi, tivessem sido escutados e respeitados, a situação do planeta seria diferente.
“Nós temos um planeta doente. Não só do ponto de vista ambiental. A crise climática está aí, em todos os cantos do planeta.”
E o impacto das mortes destes homens, para Raimundão, Guma e, como pode ser lido, pelo próprio Chico provam que a luta continua, apesar de tudo.