Dia da latinidade – dois sonhadores e a violência que atravessa um povo: de Víctor Jara a Chico Mendes

Artigo de opinião por Huana Anastácio

No Dia da Latinidade, resgatamos as histórias de Víctor e Chico. Fotos: Reprodução/Internet

Em setembro de 1973, alguns anos antes do assassinato de Chico, os militares de Augusto Pinochet levaram um grupo de manifestantes para um estádio de esportes, que já havia sido convertido em quartel de repressão. Dentre os manifestantes estava Víctor Jara.

Víctor era professor, poeta, músico e ativista político. Quando foi levado para o quartel de repressão, manifestava seu apoio ao presidente Salvador Allende, deposto pelo golpe militar patrocinado por Pinochet. Víctor ficou conhecido no Chile por suas canções políticas, que cantavam sobre a vida dos trabalhadores, injustiça social, amor e dignidade, como “El Derecho de Vivir en Paz”. Cinco dias depois de sua prisão, o cadáver do músico foi encontrado em um matagal, com uma porção de ossos quebrados e com 44 marcas de bala.

O poeta do violão teve suas mãos esmigalhadas pelas armas dos militares para que nunca mais as usasse para tocar o instrumento.

Víctor foi assinado com 40 anos e Chico com 44. Ambos ativistas, ambos mortos em um período de repressão, violência e motivo de vergonha para a América Latina. De Xapuri aos Andes, a violência atravessa a história do povo latino.

Quando pensei em falar do músico, pensei na canção “Te Recuerdo Amanda”, que canta sobre a repressão ao trabalhador a partir da história de amor de Amanda e Manuel. Víctor, que denunciava com o violão, perdeu as mãos como uma violência que além de física é simbólica. De um pensamento a outro, lembrei de quando a estátua de Chico teve às mãos arrancadas. Pensei no quanto é cruel quebrar os ossos das mãos de um músico e no quanto é uma crueldade emblemática arrancar as mãos do líder seringueiro. O seringueiro que tanto precisa das mãos no trabalho. Mesmo que as histórias dos dois ativistas estivessem distantes, que um usasse do violão como instrumento de luta, enquanto o outro, a luta vinha do orgulho de ser seringueiro, elas foram aproximadas pelas violências simbólicas que as cortam.

Em “Te Recuerdo Amanda”, em cinco minutos a vida é eterna, até que em cinco minuto tudo se acabe:

Y en cinco minutos quedó destrozado

Suena la sirena

De vuelta al trabajo

Muchos no volvieron

Tampoco Manuel

Mesmo após a morte, em cinco minutos tudo já voltou ao normal, mas muitos como Manuel não voltaram. Chico e Víctor são Manuel, a representação do latino que foi à luta e em cinco minutos foi despedaçado, que eram trabalhadores, ativistas que tiveram suas vidas arrancadas.

No Dia da Latinidade, relembrar quem foram os latinos que lutaram para que tivéssemos o direito de viver em paz, no campo, na floresta e na cidade, é resgatar a história do povo latino. Para nunca esquecer, para que do músico ao seringueiro, a vida não se acabe em cinco minutos.

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