Comunicadores indígenas do Acre fazem história no ATL 2026
Yaka Shanenawa e Samsara Nukini contam os bastidores do maior encontro indígena do mundo
Rani Shanenawa, uma das comunicadoras indígenas acreanas presente no ATL 2026. Foto: Ila Verus
A Rede de Comunicadores Indígenas do Acre (RCIA), junto de outros coletivos de jovens comunicadores do estado, participaram no Acampamento Terra Livre (ATL) 2026. A 22ª edição contou com diversas marchas e discursos voltados para a época das eleições deste ano. As integrantes da RCIA, Samsara Nukini e Yaka Shanenawa, contam para o Comitê Chico Mendes como foram os dias de mobilização em Brasília.
Yaka conta que acontecem muitas coisas ao mesmo tempo no acampamento, como debates e plenárias sobre a demarcação de terras e a defesa contra projetos que ameaçam os territórios, como a mineração e o marco temporal. Também ocorrem grandes mobilizações e marchas pelas ruas de Brasília, com atos políticos em frente ao Congresso e a outros órgãos públicos.
“É um espaço de denúncia e resistência, onde os povos expõem violências, invasões e o desmatamento, fortalecendo a união entre diferentes etnias por meio da cultura, da espiritualidade e da troca de saberes”, conta.
Movimentação em Brasília reuniu milhares de parentes ao longo dos dias de ATL. Foto: Ila Verus
História do Cocar
O primeiro ATL surgiu da insatisfação com a lentidão das políticas indigenistas no início do século XXI. Em abril de 2004, cerca de 150 lideranças indígenas, vindas principalmente das regiões Sul e Sudeste, ocuparam a esplanada em frente ao Ministério da Justiça, em Brasília. O motivo central era a cobrança por uma "Nova Política Indigenista" prometida pelo governo federal, que ainda não havia se materializado em avanços concretos na regularização fundiária.
O movimento rapidamente recebeu a adesão de organizações de outras regiões, como a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB) e a Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo (APOINME). Aquele pequeno grupo inicial conquistou vitórias imediatas, como a promulgação da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) por meio do Decreto 5.051/2004, que estabeleceu o direito à consulta prévia, livre e informada.
A necessidade de uma voz unificada e representativa em nível nacional levou à fundação da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) durante o segundo ATL, em 2005. Uma rede de articulação entre organizações regionais (COIAB, APOINME, ARPIN SUL, ARPIN SUDESTE, ATY GUASU, Conselho Terena e Comissão Guarani Yvyrupa). Desde sua criação, a APIB assumiu a coordenação do ATL, transformando-o na maior assembleia de povos originários do mundo.
Cartazes pediam justiça e dignidade aos corpos indígenas brasileiros. Foto: Ila Verus
O futuro é ancestral
Em 2026, o tema do ATL foi “Nosso futuro não está à venda: a resposta somos nós" e teve como principal discussão a rejeição dos povos originários à mercantilização da natureza e das terras indígenas, pautando a preservação territorial como a única via real para a transição ecológica justa, além de discutir o fortalecimento da bancada indígena no Distrito Federal.
“Um dos momentos mais marcantes para mim no ATL foi a fala da Célia Xakriabá sobre política, sobre a gente entender a importância do voto e levar para a juventude de dentro do território essa importância. Mostrar que o Congresso não é bom, é um congresso suicida para nós, povos indígenas. Aprender que a gente precisa aumentar a Bancada do Cocar”, exemplifica Samsara Nukini.
A 22ª edição reuniu uma multidão estimada entre 7.000 e 8.000 participantes. A diversidade foi um dos pontos altos, com a presença de representantes de aproximadamente 200 povos originários diferentes, provenientes de todas as regiões e biomas do Brasil (Amazônia, Cerrado, Mata Atlântica, Caatinga, Pampa e Pantanal).
ATL acontece desde 2004, em Brasília. Foto: Ila Verus
As discussões do ATL 2026 foram estruturadas em cinco eixos principais, abrangendo desde a defesa territorial até o fortalecimento da democracia brasileira. As reivindicações foram formalizadas em três cartas endereçadas aos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário.
Demarcação de Terras Indígenas: Esta permanece como a pauta fundamental. A APIB denunciou a morosidade administrativa, apontando que, apesar das 20 homologações ocorridas entre 2023 e 2025, o passivo ainda é enorme.
Combate ao Marco Temporal: A resistência contra a Lei 14.701/2023 e a tese de que os indígenas só teriam direito às terras ocupadas em 1988 foi o motor das marchas até o Congresso e o STF.
Exploração Mineral e Lobby Econômico: O evento serviu de plataforma para o lançamento do relatório "Desmascarando o Lobby Mineral em Terras Indígenas no Brasil", que detalhou a pressão de grandes mineradoras sobre os territórios amazônicos.
Representação Política e Eleições: No contexto do ano eleitoral de 2026, o movimento lançou a estratégia de "aldear a política", visando ampliar a representação indígena no parlamento e em cargos estratégicos.
Memória e Justiça: Uma plenária específica discutiu as violações sofridas durante a ditadura militar, propondo a criação de uma Comissão Nacional Indígena da Verdade.
“Poder trazer do ATL essa força e essa garra que a gente ouviu lá sobre a importância de votar, sobre a importância de a gente colocar uma pessoa para nos defender e saber que temos um poder imenso, que é o poder do voto. Não desperdiçar com qualquer pessoa; votar direito, votar consciente”, continua Nukini.
RCIA levou os comunicadores Yaka Shanenawa, Kelianne Manchineru, Rani Shanenawa, Gustavo Nukini, Ximery Apurinã, Junior Manchineru, Beyuani Huni Kuin e Samsara Nukini. Foto: Ila Verus
Acre, presente!
O ATL 2026 foi marcado por ações que uniram tradição e novas linguagens de resistência. Destaca-se a "Marcha LGBTQIAPN+ Indígena" e a realização do 2º Ballroom Indígena, que reafirmaram a diversidade interna dos povos e a ideia de que "nossos corpos também são território". Outro momento simbólico foi a ocupação da sede da Cargill por povos do Baixo Tapajós antes do acampamento, o que resultou na revogação do Decreto nº 12.600, que previa a privatização de rios.
Embora se reconheça o avanço em relação ao governo anterior (2019-2022), a APIB classificou as entregas do governo federal como "aquém da urgência histórica". O Congresso Nacional, por sua vez, foi identificado como o principal foco de ataques, agindo como uma "plataforma em favor de interesses privados" e do agronegócio. O movimento também manifestou preocupação com a "Câmara de Conciliação" do STF, vista como uma tentativa de relativizar direitos originários em favor de acordos políticos.
O Acre ocupa uma posição de liderança histórica e estratégica dentro do movimento indígena brasileiro. No ATL 2026, a participação acreana foi marcada pela integração entre saberes tradicionais e apropriação tecnológica, especialmente no campo da comunicação. Samsara, que está em seu terceiro ano de participação, declara que este ano foi especial pela presença da RCIA com jovens que nunca participaram do encontro:
“Uma fala de uma parente, que não me recordo o nome, me veio à mente. Ela falou na tenda da COIAB e me deixou bastante tocada ao dizer: "quem sabe daqui a uns anos a gente não se encontra no ATL para celebrar?". Celebrar as terras demarcadas, celebrar esses momentos de felicidade e as tristezas que passamos, mas que conseguimos frear tanta violência dentro dos territórios”.
ATL é o maior encontro indígena do mundo e está em sua vigésima segunda edição. Foto: Ila Verus
A mobilização do estado foi articulada principalmente pela Comissão Pró-Indígenas do Acre (CPI-Acre), junto da RCIA, além de coletivos de comunicação como a Tetepawa Comunica. Outras entidades fundamentais presentes foram a Organização dos Professores Indígenas do Acre (OPIAC) e a Associação do Movimento dos Agentes Agroflorestais Indígenas do Acre (AMAAIAC), que representam categorias profissionais indígenas na vanguarda da gestão territorial.
“Ser um jovem político também significa organizar reuniões na comunidade, fortalecer a cultura, a língua e ajudar nas decisões locais. Hoje, a comunicação é poder, e quem sabe se comunicar tem mais força política. A juventude pode usar as redes sociais para denunciar, informar, mostrar a realidade do seu povo e combater notícias falsas sobre os indígenas”, declara Yaka.
A presença do Acre no ATL 2026 também trouxe à tona a pauta da proteção dos Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato, que habitam as áreas de fronteira entre o Brasil e o Peru. O movimento celebrou avanços como a delimitação territorial da TI Riozinho do Iaco, fruto de mobilizações apoiadas pela CPI-Acre e pela COIAB. A experiência acreana com os Agentes Agroflorestais Indígenas (AAFIs) foi apresentada como um modelo de gestão ambiental que deve ser replicado nacionalmente.
A “Bancada do Cocar” foi uma das principais pautas deste ano. Foto: Ila Verus
Mídia negligente
A cobertura jornalística do ATL 2026 revelou, mais uma vez, as fissuras e os preconceitos estruturais da mídia comercial brasileira. Enquanto o evento reuniu mais de 7 mil pessoas para debater o futuro ecológico do país, a imprensa tradicional manteve um padrão de invisibilização ou de abordagem superficial.
Diferente de grandes eventos políticos do Sudeste ou das movimentações do mercado financeiro, que recebem transmissões ao vivo e análises minuciosas, o ATL é frequentemente tratado como um evento folclórico ou "pitoresco". A cobertura da mídia hegemônica tende a ser episódica, focando apenas nos momentos de conflito com a polícia ou na estética das marchas, ignorando o conteúdo denso dos documentos e relatórios apresentados.
Um exemplo dessa distorção pode ser visto na comparação entre veículos. Enquanto o portal G1 reportou fatos específicos, como a participação de 500 indígenas do Maranhão, outros grandes veículos como a Folha de S.Paulo por vezes emolduraram o encerramento do ATL dentro de um contexto de apoio eleitoral ou crises externas (como a situação na Venezuela), o que acaba diluindo a pauta específica dos direitos originários em favor de narrativas macro-políticas mais familiares ao público urbano do Sudeste.
Parentes de todas as gerações e estados se concentraram em Brasília. Foto: Ila Verus
A crítica central reside na ausência de protagonismo indígena nas narrativas da grande mídia. Segundo dados do Reuters Institute, não existem editores-chefes negros ou indígenas nos veículos da mídia hegemônica no Brasil.
“Eu sou jovem indígena. Eu sou presente, não só futuro. A juventude indígena não quer ficar apenas ouvindo; nós queremos participar, decidir e construir caminhos, porque somos nós que vamos continuar essa luta", afirma Yaka.
Comunicação indígena como resistência
O termo "racismo ambiental" aplica-se aqui, pois a destruição dos territórios indígenas é tratada como um custo aceitável para o progresso da mineração ou do agronegócio, pautas que contam com forte apoio editorial de muitos grupos de mídia. Yaka Shanenawa também fala do papel de formação política que existe no ATL:
“Não dá para entrar na luta sem entender os direitos indígenas, as leis e os projetos que afetam os territórios. O ATL pode transformar o jovem em uma liderança política, mas isso não é automático; é uma escolha que exige posicionamento, coragem e compromisso.”
Tema deste ano era “Nosso futuro não está à venda: A RESPOSTA SOMOS NÓS”. Foto: Ila Verus
Em contraste direto com a negligência tradicional, mídias independentes e indígenas como a Mídia Índia, Sumaúma, Amazônia Real e a própria RCIA realizaram uma cobertura de profundidade. Samsara Nukini espera também que o ATL , a partir da cobertura compartilhada nas redes da juventude indígena comunicadora, gere uma transformação de comportamento da juventude indígena em relação ao voto:
“Espero, do fundo do meu coração, que o ATL tenha transformado a mente da juventude que esteve lá pela primeira vez ou pela décima vez, para que tenham entendido a força desse grito por um voto consciente, voto no parente. Temos vivido momentos muito difíceis quando saímos para lutar contra o Congresso. Sabemos que eles têm o poder da caneta na mão, mas nós temos o poder do voto.”
A credibilidade do trabalho jornalístico da mídia independente é significativamente maior junto aos povos originários. Enquanto apenas 42% da população em geral confia na imprensa tradicional, os povos indígenas têm buscado nas redes sociais e em coletivos próprios a fonte de informação segura, utilizando a comunicação digital para "descomplicar" a burocracia estatal e fortalecer sua resistência local.