A Amazônia vista por cima jamais proporciona a experiência de viver dentro dela

Artigo de opinião por Luiza de Lima, Henrique Almeida e Victor Manoel

"Nem todo rio corre; algumas águas caminham lentamente até o destino”. Foto: Adriano Liziero

Uma vez vi minha sobrinha mais velha apontando pro rio Madeira e falando, “esse é o teu Rio, Maria Clara”. A gente estava em Porto Velho, onde ainda passa o Rio Acre. O Victor Manoel, nasceu em Cruzeiro do Sul, no final de semana, mas principalmente nos verões, ele ia pras praias que o Rio Juruá cria naquele Vale que é aquela região do estado.

Todo mundo que nasce na Amazônia tem um rio. Eu estava viajando e passando por cima de alguns rios, entrei nessa reflexão. Quando a gente cresce na Amazônia, cada pessoa tem um rio de referência, né? A Amazônia Legal Brasileira abrange 60% do território nacional, cerca de 28 milhões de habitantes e 25 mil quilômetros de vias navegáveis.

Um rio desses podia ser o seu ponto de encontro, no final da tarde, a gente combinava de encontrar com os amigos no rio, ou o rio que tinha que atravessar para visitar outro ponto da cidade. Um rio de referência, um rio que norteia, um rio que direciona, um rio que flui.

E falando em rios. Há mais ou menos uma semana atrás, os rios da Amazônia foram mapeados para criar uma novo logotipo da Amazônia. Todos os caracteres eram curvas desses rios. Se você fosse ver os créditos, artistas dos nove estados brasileiros amazônicos participaram, mas a ideia toda foi liderada pela FutureBrand, uma empresa de São Paulo e lançada pela RAI, Rotas Amazônicas Integradas, em parceria com a Embratur.

No texto de lançamento, a gente pode ler que um dos motivos que o projeto gráfico foi criado foi porque a Amazônia “nunca teve uma marca unificada”. Eles mapearam imagens via satélite e extraíram o “ABC”. O “extrair” me pegou muito nesse texto. Afinal, como criar algo sem estar presente e vivendo essas realidades?

E a comunicação no olhar, que muitas vezes é só um “égua” espontâneo que significa muita coisa, é o andar em fila de quem tem no sangue a memória dos caminhões das matas. Quando falamos sobre Amazônia, sem a vivência de quem de fato vive nela, corremos sério perigo de perder o tom. 

Tudo que você vê aqui, no Comitê Chico Mendes, das planilhas, das postagens das participações em eventos pelo Brasil e pelo Mundo é pensado, elaborado e construído por muitas mentes, mãos e corações raízes dessa Amazônia Acreana. Temos muito orgulho de dizer que nosso time é composto 100% de acreanas e acreanos, que não só partilham de um ideal de mundo, como trabalham arduamente, afinco, com sede de fazer mais e melhor. 

Já viu como são as nossas identidades visuais? Perceberam como a nossa marca reflete toda a nossa atuação, conectando gerações e falando de um futuro possível?  Todo esse universo que faz a nossa comunicação acontecer só é possível por que temos na nossa equipe pessoas que fazem design amazônico com alma e com amor pelo seu território.

E isso faz uma diferença tremenda. Desde o modo de pensar até como executar. Afinal, a gente de vez em quando ouve: “nossa, mas a juventude não quer trabalhar”, “mas realmente existem profissionais assim no Acre?”. E bem, nós somos o próprio argumento que derruba todas as desconfianças. Essa passagem de bastão entre gerações não só já aconteceu, como é a base de muita coisa que a gente pensa no Comitê.

A nossa articuladora, Karla Martins, sempre defende uma Amazônia em primeira pessoa, a floresta precisa falar pra quem sabe ouvir. “Se forem falar da Amazônia, nos ouçam. Temos coisas incríveis a contar”, também dizia Angela Mendes

Nós acreditamos nos nossos. E por isso investimos na nossa terra. Porque pra falar de Amazônia, de Acre, precisamos estar com nossos pés fincados no território que nos nutre e nos projeta para sonhos possíveis. Também é preciso gerar renda e empregos para toda essa juventude que sonha e cria novas Amazônias todos os dias. E para fazer isso não tem como estar em cima vendo imagem de satélite. A gente tem que estar junto.

Por aqui o debate é de que devemos estar ainda mais dentro. De nós mesmos, das Reservas Extrativistas. Das florestas. E seguimos assim.


Valorizamos profundamente o livre compartilhamento de vivências, ideias e histórias. Contudo, reforçamos que os artigos de opinião publicados no portal 487 representam relatos e opiniões individuais, e não refletem, necessariamente, o posicionamento coletivo do Comitê Chico Mendes. Seguimos comprometidos com o diálogo, a escuta mútua e a construção coletiva de nossos caminhos na luta pelos direitos dos povos da floresta.

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