Quem escreve sobre quem escreve?

Quando o repórter do Comitê Chico Mendes vira notícia

Começo esse texto pensando muito sobre como posso escrevê-lo. Não porque falte palavra, palavra nunca falta pra quem escolheu esse ofício, mas porque, dessa vez, a palavra precisa se virar pra dentro. E nem sempre a gente tá acostumada com isso.

Porque o gesto automático do jornalista é outro: olhar pra fora, organizar o mundo, dar nome às coisas, transformar vida em texto, acontecimento em narrativa, gente em história.

No dia de celebrar o jornalismo, o Victor Manoel, nosso repórter do Comitê, escreveu sobre outro jornalista. Enquanto muita gente disputava espaço, pauta ou urgência, Manoel fez o que faz de melhor: olhou para o lado e contou a história de alguém. Escolheu falar de Elson Martins, um nome que carrega o peso e a delicadeza de quem ajudou a construir caminhos para o jornalismo no Acre.

Manoel escreveu. Como sempre escreve. Com atenção, com cuidado, com esse compromisso de quem entende que contar histórias é, antes de tudo, uma forma de cuidar delas.

Mas nesse mesmo dia, talvez como uma dessas ironias bonitas da vida, foi ele quem virou notícia. Manoel ganhou um prêmio de jornalismo (aliás, mais um)

E aqui começa um pequeno deslocamento: quem escreve sobre quem escreve? Quem narra o narrador? Quem observa aquele que está acostumado a observar? A resposta, dessa vez, sou eu. E tem um detalhe que complica e, ao mesmo tempo, enriquece tudo: eu também sou jornalista.

Escrevo sabendo o peso dessa escolha. Sabendo que não existe neutralidade quando se fala de alguém que partilha do mesmo ofício, das mesmas urgências, dos mesmos dilemas. Escrevo também com a consciência de que, muitas vezes, nosso trabalho é invisível, não porque não importa, mas porque ele é feito justamente para iluminar os outros.

Manoel é desses. Ele escreve matérias, perfis, registros. Ele escreve o Comitê e escrever o Comitê não é pouco. É traduzir a luta em linguagem, é organizar o que é urgente sem perder o que é humano, é não deixar que as coisas se dissolvam no esquecimento rápido das timelines.  É ter consistência quando ninguém está olhando. É ter responsabilidade com cada história que passa por suas mãos. É sustentar uma narrativa coletiva com cuidado e compromisso.

E talvez por isso seja tão justo, e tão raro, esse momento em que a luz vira. Porque nem sempre quem escreve é escrito. Nem sempre quem narra é narrado. Nem sempre quem sustenta as histórias dos outros tem a sua própria história contada.

Hoje, tem. E não como um gesto de obrigação institucional, mas como reconhecimento. Como um pequeno ajuste de foco. Como quem diz: a gente vê você.

Num tempo em que o jornalismo é constantemente tensionado, desacreditado ou precarizado, celebrar um jornalista é também afirmar a importância do próprio ato de narrar o mundo.

Victor Manoel ganhou mais um prêmio. Mas mais do que isso: ele construiu, com consistência e cuidado, um lugar de escuta e de escrita que merece ser reconhecido.

E talvez o mais bonito disso tudo seja esse ciclo que se fecha e se abre ao mesmo tempo: um jornalista que escreve sobre outro, que ganha um prêmio, e que agora é escrito por alguém que também escreve. 

No fim, é isso. A gente escreve para que o mundo não passe em branco. E, de vez em quando, a gente escreve para que quem escreve também não passe.

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