Entre empregos verdes e trabalho sustentável: os povos das florestas já nos ensinaram como trabalhar integrados à natureza 

Artigo de opinião por Bianca Vidal

Ateliê da Floresta é um dos exemplos de empregos verdes que nascem de onde vivemos. Foto: Brenda Spinosa/Comitê Chico Mendes

O futuro do trabalho depende essencialmente da integração com a sustentabilidade ambiental. O marco sobre transição justa, em 2015, representou um primeiro passo para estimular a criação de empregos que contribuam para preservar ou restaurar a qualidade do meio ambiente (OIT, 2025). Esses são, portanto, os chamados empregos verdes.

Deixa eu te contar melhor o que são eles. De  forma simples, são trabalhos/profissões que contribuem para proteger o meio ambiente, reduzir impactos ambientais e construir formas de produção mais justas e equilibradas. Os empregos verdes estão presentes em setores como agricultura, indústria, pesquisa e serviços, desde que contribuam para preservar ecossistemas, reduzir emissões e promover o uso responsável dos recursos naturais (PNUMA, 2008). 

Estão dentro desse bojo, por exemplo, os postos de trabalho criados pela expansão dos setores de energias renováveis e eficiência energética (Herzog e Zimmermann, 2025), além de profissionais de advocacy que atuam na incidência por políticas públicas favoráveis para o meio ambiente, povos indígenas e comunidades tradicionais.  

Talvez você já saiba disso ou talvez esteja descobrindo agora que existe um jeito diferente de trabalhar. Te convido a refletir: e se a nossa produtividade pudesse ser, também, um exercício consciente de cuidado com a Terra? Talvez você já faça isso, seja cuidando de pessoas, de processos, locais ou de sonhos; aqui, o convite é que esse cuidado alcance também a nossa casa comum.

Onde buscar oportunidades em empregos verdes

Pedindo licença como quem entra na mata ou reconhece o tempo do rio, sabendo quando a maré permite subir o barco e quando o seco nos avisa que é hora de voltar. Não se trata de explorar, mas de pertencer! Para te ajudar a mapear onde essas oportunidades florescem, confira esses 5 perfis e plataformas dedicados a carreiras com impacto positivo.

1- ComImpacto: Umas das plataformas de curadoria de vagas com propósito. É ideal para quem busca cargos de liderança, gestão e especialistas em impacto socioambiental: ComImpacto

2-  O perfil @empregosambientais: Plataforma brasileira especializada em oportunidades para as áreas técnicas, conservação e licenciamento ambiental: Empregos Ambientais

3- UNLEASH: Rede global que promove laboratórios de inovação e capacita jovens líderes para criar soluções sustentáveis e atuar na linha de frente do advocacy ambiental. UNLEASH

4-  Plataforma de Transição Justa: Articula políticas públicas, oferecendo vagas para graduados, formação para comunidades e jovens, além de incentivos para investimentos verdes.Transição Justa

5- Amazônia Vox: Conecta profissionais locais a oportunidades de trabalho, com foco no protagonismo amazônida. Possui banco de talentos para freelancers e uma newsletter com editais, bolsas e cursos gratuitos. Amazônia Vox.

Perfis de Curadoria no Linkedin

1-  Aline Lazzari- Referência na busca ativa por vagas em ESG e sustentabilidade. Pública curadorias semanais. 

2-Marcos Pinheiro- Conhecido por listas como “10 vagas em ESG e Sustentabilidade”, reúne oportunidades técnicas e de liderança, além de tendências do setor.  

3-  Youth Climate Leaders- Perfil voltado à preparação de jovens para a economia de baixo carbono, com formações e curadoria de vagas ligadas à crise climática. 

Essa movimentação nas redes mostra que o caminho já está sendo construído. Mas para além de saber onde buscar, é preciso compreender a base que sustenta esse novo mercado. Economistas como Bakker e Young (2011) classificam empregos verdes a partir de setores econômicos e investimentos em proteção ambiental. No Brasil, Bonelli e Lazzareschi (2015) associam o conceito à transição para economias de baixo carbono, com menor uso de recursos naturais e maior proteção da biodiversidade. 

Mais do que um conceito técnico, empregos verdes refletem uma mudança de perspectiva sobre o futuro do trabalho. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) reforça que esses empregos devem estar vinculados ao trabalho decente com direitos, segurança e dignidade. Assim, sustentabilidade ambiental e justiça social são inseparáveis, pois não há transição ecológica sem enfrentar as desigualdades históricas do mercado de trabalho.

O que a amazônia já ensina sobre trabalho sustentável

Na Amazônia, e especialmente no Acre, falar de trabalho exige reconhecer múltiplas formas de sustento que vão além do emprego formal, é compreender as múltiplas formas de cuidar da terra e da autogestão pelas quais diferentes povos interagem com seu entorno (Herzog e Zimmermann, 2025b). Chico Mendes e a história dos seringueiros são pioneiros em mostrar como a atividade laboral não se limita a uma busca por renda, mas pode e deve ser um ato de proteção da floresta. 

Aqui, sustento e preservação são inseparáveis. Não se trata apenas de usufruir dos recursos, mas de cuidar do bem comum que garante a vida e a continuidade da produção de forma equilibrada. Os seringueiros obtinham sua renda por meio da extração do látex sem que nenhuma árvore fosse derrubada nesse processo. Quando políticas nacionais de integração queriam derrubar a floresta para implantar pastagens e monoculturas, seringueiros(as) organizados faziam uma corrente humana para “empatar” a entrada de máquinas na floresta. Essa resistência ficou conhecida como “empates” e impulsionou a criação do que conhecemos hoje como reservas extrativistas  

  Essa “ética do uso” em que o sustento caminha junto com a vida da floresta, não é um conceito novo, mas ele pulsa a milênios no modo de vida, também dos povos indígenas. Nesse processo, o que guia a ação é o equilíbrio: se uma folha é retirada ou se uma caça é consumida, há o saber de que aquele ecossistema precisa continuar vivo. Os povos indígenas sempre usaram os recursos naturais sem colocá-los em risco, desenvolvendo manejos que hoje são fundamentais para a conservação da biodiversidade. 

Basta olhar para o que alimenta o nosso corpo para reconhecer essa herança: o açaí, a banana, a goma de tapioca, a farinha o feijão, o milho e tantas outras variedades que chegam à nossa mesa, são frutos de sistemas agrícolas milenares que entendem o tempo da semente e da terra. A IPBES (Intergovernamental de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos) reconhece a contribuição indígena como central para a conservação global. No Brasil, isso também se reflete em marcos como a Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas (PNGATI).  

Hoje, a grande luta é para que esse conjunto de leis seja cumprido, garantindo terras livres de invasores, o reconhecimento territorial e a manutenção dos seus modos de vida. É nessa relação de proximidade, e não de dominação, que reside uma das chaves para refrear o colapso ambiental. 

No livro Ideias para adiar o fim do mundo, Ailton Krenak (2019) denuncia a cegueira de uma humanidade que não reconhece o parentesco com os elementos naturais, tratando montanhas e rios como recursos exploráveis. No contexto dos empregos verdes, essa mudança de paradigma é essencial para que o trabalho deixe de ser uma ferramenta de exaustão e passe a ser um meio de compartilhar a vida.

 Desse modo, questiono você, caro leitor: podemos aproximar o conceito de empregos verdes dessa visão ancestral, para que o trabalho incorpore uma ética de cuidado e parentesco com o bioma, voltada ao bem comum e não apenas ao lucro?

Olhando para toda essa riqueza de saberes, é inevitável notar um contraste. É importante lembrar que os empregos verdes não se restringem a profissões com formação universitária. Sugahara (2010) aponta que esses trabalhos podem emergir em diferentes níveis de qualificação, desde atividades manuais até ocupações altamente especializadas. Isso significa reconhecer que trabalhadores da sociobiodiversidade, guardiões de saberes tradicionais e agentes comunitários também constroem, na prática, economias sustentáveis mesmo quando essas experiências não são formalmente nomeadas como empregos verdes. Por isso, grande parte da bibliografia acadêmica advoga o uso do conceito trabalho sustentável, por entender que integra mais modos produtivos ao redor do mundo. 

Juventude, Acre e novas oportunidades

Atualmente, o estado tem se inserido nessa agenda ao participar da construção do Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg). Esse movimento coloca o Acre na rota de setores emergentes da economia verde, ampliando o potencial de captação de investimentos e fortalecendo estratégias de desenvolvimento alinhadas à conservação ambiental (Portal do Acre, 2026). Cerca de 165,7 hectares já estão em recuperação por meio da implantação de Sistemas Agroflorestais (SAFs) em propriedades familiares. A iniciativa integra ações de regularização ambiental e recomposição florestal, articulando produção de alimentos, geração de renda e restauração de áreas degradadas. 

No cenário nacional, o debate sobre economia verde e descarbonização vem ganhando espaço como estratégia de crescimento econômico. Estudos indicam que a transição para modelos produtivos sustentáveis tem potencial de gerar novas oportunidades e reorganizar cadeias econômicas (Kon & Sugahara, 2012). Esse movimento dialoga diretamente com agendas como economia circular, bioeconomia e agroecologia.

Nesse contexto, a juventude ocupa lugar estratégico. Muitos jovens amazônidas já constroem experiências alinhadas aos empregos verdes por meio de coletivos, movimentos socioambientais, projetos de pesquisa e iniciativas culturais. A Semana Chico Mendes surge como um desses espaços estratégicos, que não apenas celebram a memória de luta dos povos da floresta, mas também atualizam esse legado ao fomentar redes, parcerias e oportunidades na economia verde. 

É justamente para provocar essa reflexão que surge o Laboratório de Juventude, Clima e Economia. Ao reunir jovens interessados em pensar trabalho, território e justiça climática, o laboratório fortalece repertórios e amplia horizontes sobre o futuro do trabalho na Amazônia. Falar de empregos verdes, nesse contexto, é também falar de permanência, pertencimento e valorização dos saberes  e tecnologias sociais que sustentam a vida nos territórios. 

Os empregos verdes não são solução única para os desafios socioambientais, mas representam uma agenda potente para quem acredita na Amazônia viva e nos territórios fortalecidos. Para a juventude, pode significar a possibilidade de permanecer, inovar e transformar, não apesar da floresta, mas junto com ela. 

Quando o verde não basta

Apesar das potencialidades apresentadas, é importante problematizar até que ponto os chamados empregos verdes são, de fato, transformadores. Quando orientada exclusivamente por lógicas de mercado, a transição ecológica pode reproduzir desigualdades históricas e reforçar assimetrias entre territórios. Nesse cenário, regiões como a Amazônia correm o risco de serem reduzidas a fornecedoras de ativos ambientais, sem garantia de autonomia ou distribuição justa dos benefícios gerados.

 O outro lado dessa moeda, é que esse debate nos convida a refletir sobre quem define a agenda da economia verde e quem realmente se beneficia dela. Inspiradas no legado de Chico Mendes, torna-se fundamental afirmar que os empregos verdes devem estar comprometidos não apenas com a sustentabilidade ambiental, mas também com a justiça social, o protagonismo local e a valorização dos modos de vida dos povos da floresta.

No fim das contas, talvez a pergunta mais importante não seja apenas o que são empregos verdes, mas como garantir que eles sejam acessíveis, reconhecidos e enraizados nos territórios. Afinal, muitos desses trabalhos já existem há muito tempo, nas mãos de quem cuida, produz e resiste todos os dias. 

Neste 1º de Maio, nosso convite é para honrarmos quem veio antes de nós e abrirmos Caminhos para quem está chegando. Que o trabalho verde seja sinônimo de pertencimento e que todos encontrem na floresta não apenas um lugar de resistência, mas um território de  oportunidades, dignidade, inovação e vida plena. Que possamos reconhecer e valorizar o trabalho que regenera a vida, garantindo que o futuro do trabalho na Amazônia seja escrito por mãos amazônidas. 

Referências

BAKKER, K.; YOUNG, R. Classificações de empregos verdes e economia sustentável, 2011.

BONELLI, Valério Vitor; LAZZARESCHI, Noêmia. Empregos verdes: classificação, crescimento e desenvolvimento. Revista de Ciências Sociais, 2015.

Desenvolvimento sustentável,trabalho digno e empregos verdes. Relatório V. Quinto ponto da ordem de  trabalhos. Conferência internacional do trabalho, 2013

HERZOG, Lisa; ZIMMERMANN, Bénédicte. Sustainable work: A conceptual map for a social-ecological approach. International Labor Review, v. 164, n. 1, 2025. DOI: https://doi.org/10.16995/ilr.18834. Disponível em: https://doi.org/10.16995/ilr.18834. Acesso em: 6 abr. 2026.

KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

OIT. 2015. Directrices de política para uma transición justa hacia economías y sociedades ambientalmente sostenibles para todos. Ginebra.

Mardegan, A. M., Lopes, J. L. de B., & Manaças, M. E. A. (2025). O papel das terras indígenas na Amazônia legal para o desenvolvimento sustentável. OBSERVATÓRIO DE LA ECONOMÍA LATINOAMERICANA, 23(1), e8809. https://doi.org/10.55905/oelv23n1-211 

Notícia:

CARDOSO, Raimari. Acre pode integrar fronteira de empregos verdes gerados pela restauração florestal no Brasil. Portal Acre, 2026. Disponível em: https://portalacre.com.br/2026/01/acre-pode-integrar-fronteira-de-empregos-verdes-gerados-pela-restauracao-florestal-no-brasil/. Acesso em: fev. 2026.

Tiago Moreira dos Santos. Antropólogo - Programa de Monitoramento de Áreas Protegidas. Terras Indígenas protegem a floresta. acesso em: Abril. 2026

IPBES (2019): Resumo para formuladores de políticas do relatório de avaliação global sobre biodiversidade e serviços ecossistêmicos da Plataforma Intergovernamental de Políticas Científicas sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos. https://doi.org/10.5281/zenodo.3553579 . Acesso em : Abril. 2026


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