EXTRATIVISMO É... O FUTURO!

Nota de repúdio aos ataques contra os povos da floresta e de solidariedade à comunidade acadêmica da Ufac

Seringueiros fazem parte da história do estado do Acre. Foto: Acervo Comitê Chico Mendes

A Conexão Cipó vem a público manifestar seu repúdio à postura vil e desrespeitosa do presidente estadual do Partido Liberal (PL), João Paulo Bittar, que, em recente manifestação pública, ostentou uma camiseta com a estampa de deboche “extrativismo é o meu ovo”, além de atacar a comunidade da Universidade Federal do Acre (UFAC) chamando estudantes, professores e servidores de “bando de vagabundos” e tentando criminalizar a organização estudantil do DCE.

A insolência estampada no peito de quem busca palanque eleitoreiro revela muito mais do que falta de compostura: revela o desconhecimento e o desrespeito sobre a história, a identidade e a economia real do estado do Acre. Extrativismo não é passado nem atraso: é fonte de renda, sustento, ciência ancestral e conservação ambiental. É parte fundamental do presente e do Futuro.

Enquanto porta-vozes do latifúndio e do desmatamento tentam reduzir o extrativismo a uma piada de mau gosto, são as mãos calejadas de dezenas de milhares de famílias seringueiras, castanheiras, ribeirinhas e indígenas que seguem sustentando economias locais, preservando territórios e mantêm o Acre de pé. Os dados oficiais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) desmentem a desfaçatez dos detratores: a produção da extração vegetal movimenta anualmente mais de R$115 milhões na economia acreana. 

São cestas produtivas vitais como a castanha-do-brasil — pilar da renda de milhares de lares no interior —, a borracha nativa (com faturamento superior a R$ 14 milhões e liderança histórica de Xapuri), o açaí e os óleos vegetais que alimentam as cidades, abastecem o mercado regional e sustentam redes de cooperação onde o agronegócio predatório só deixa cinzas e vidas ameaçadas.

O extrativismo é o modelo socioambiental mais sofisticado já criado na Amazônia: gera trabalho digno, combate a fome, protege os mananciais que abastecem os centros urbanos e estoca carbono, desempenhando papel crucial diante da emergência climática global. Os conhecimentos dos povos extrativistas constituem uma tecnologia viva de convivência harmoniosa com a floresta em pé. Um patrimônio construído ao longo de gerações, reconhecido no mundo inteiro, mas covardemente menosprezado por aqueles que medem o progresso pela destruição.

O deboche contra o extrativismo e os ataques à universidade pública brotam da mesmíssima raiz autoritária. Quem odeia a floresta viva também odeia o pensamento crítico e os princípios que sustentam uma sociedade democrática: o respeito à diversidade, à produção de conhecimento e à liberdade de organização. Ao desqualificar os estudantes e trabalhadores da UFAC como “vagabundos”, o agressor ataca justamente os filhos e filhas desses mesmos extrativistas, seringueiros, agricultores e operários que, com sacrifício exemplar, chegam ao ensino superior para produzir ciência que pode ser voltada à sociobiodiversidade e ao desenvolvimento do nosso estado. E também uma instituição pública fundamental para a formação  de profissionais, a produção científica e a construção de soluções para os desafios sociais, econômicos e ambientais do Acre. Desrespeitar essa comunidade é ignorar a contribuição da educação pública para a redução das desigualdades e para a construção de um futuro mais justo para o estado.

A história do Acre é inseparável da luta dos extrativistas e dos povos indígenas. Chico Mendes, Wilson Pinheiro e tantos mártires da borracha não derramaram seu sangue para que a memória dos povos da floresta fosse tripudiada por bravatas de internet. As Reservas Extrativistas foram forjadas na dor e na resistência para garantir território, trabalho e dignidade aos que nela habitam.

Exigimos retratação pública e integral pelas agressões proferidas contra as populações tradicionais e contra a universidade pública acreana. A Conexão Cipó reafirma seu compromisso inabalável com as famílias extrativistas e cerra fileiras ao lado dos estudantes, docentes e técnicos da UFAC. Aos que vociferam contra a floresta, deixamos nosso recado: o Acre pertence àqueles que o constroem com suor, sabedoria e respeito à terra.

Não aceitaremos que o trabalho de quem protege a floresta seja tratado com escárnio, nem que a universidade pública seja alvo de ataques que deslegitimem sua comunidade e sua função social. O desenvolvimento do Acre não pode ser medido apenas pela expansão de atividades econômicas, mas também pela capacidade de gerar bem-estar, reduzir desigualdades, respeitar os povos e preservar as condições que sustentam a vida.

Em defesa dos povos da floresta e da universidade pública!

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