Chico Mendes nunca disse “Ecologia sem luta de classes é jardinagem”

No nosso texto especial de dia da mentira, vamos explicar uma das maiores confusões do história do nosso líder seringueiro

Ao pesquisar “Chico Mendes frase” nos buscadores da internet, o que mais aparece são exemplos do uso equivocado da afirmação. Foto: Reprodução/Internet

Sabe quando uma mentira é contada muitas vezes até se tornar verdade? Neste caso pode se aplicar a frase “Ecologia sem luta de classes é jardinagem”, aderida ao longo da história a Chico Mendes. Mas, conforme seus companheiros, ele nunca disse. E, nesta quarta-feira, 01, dia da mentira, Gomercindo Rodrigues, o Guma, advogado e companheiro de luta de Mendes explica esta confusão.

Tudo começa com o artigo “Quatro mentiras sobre o ambiente” escrito por Eduardo Galeano, o autor uruguaio, escritor do clássico “As veias abertas da América Latina”. Publicado no começo do século 20, no qual ele expõe desinformações espalhadas sobre o socioambientalismo.

“O texto do Galeano é extremamente didático. Ele se divide em quatro mentiras que nos falam sobre o meio ambiente, que tentam nos impor sobre o meio ambiente. E quando ele fala das mentiras, ele vai na questão do consumismo”, explica Guma.

O autor reflete sobre como nos é dito, falsamente, que somos responsáveis pela destruição do planeta, como existe todo um marketing que nos empurra para o consumismo, sem ter um compromisso verdadeiro com o meio ambiente e que existe uma separação entre humanidade e natureza. Já sobre a mentira protagonista deste texto, Guma explica que:

"Quando ele fala da terceira mentira, é quando ele fala do Chico. É quando fazem aquela atribuição da frase de que ecologia sem luta de classe é jardinagem. E atribuem essa frase ao Chico. Na verdade, é uma interpretação que ele faz de que o Chico mostrou isso. Que a luta pelo meio ambiente é uma luta de classe, uma luta que se contrapõe aos interesses do grande capital.”

2.923 km² foram desmatados na Amazônia, em 2026. O desmatamento no Brasil é impulsionado principalmente pela expansão agropecuária (pecuária e grãos), especulação fundiária, garimpo e exploração ilegal de madeira, concentrando-se fortemente na Amazônia e no Cerrado. Segundo a CNN, mais de 95% do desmatamento possui indícios de ilegalidade, frequentemente associado a crimes ambientais e invasão de terras públicas.

Nem Chico e nem Galeano

Um fato curioso sobre é que nem no texto está escrito literalmente “ecologia sem luta…”. Na verdade, a frase é um resumo do tópico abordado. E Chico é referenciado, porque ele é usado como exemplo da luta socioambientalista mundial.

“Chico acreditava que a floresta amazônica não seria salva enquanto não se fizesse uma reforma agrária no Brasil. Sempre tentaram fazer assim: como se o Chico Mendes, para alguns, fosse só um ecologista; para outros, só um sindicalista; para outros, só um político. E o Chico, na verdade, era tudo isso. Era um Chico que conseguia fazer as pontes entre esses diversos caminhos”, reverbera Rodrigues.

Mendes sempre defendeu que os políticos tinham que assumir isso, como fala seu parceiro de Empates.

“O Chico conseguia ligar todas essas coisas porque ele era isso, ele era tudo ao mesmo tempo. Eu acho que é isso que o Galeano entendeu perfeitamente quando fala disso”, continua.

“Entre o capital e o trabalho, a ecologia é neutra”

Para Guma, a reforma agrária não interessa aos grandes latifundiários, que são os mesmos culpados, “porque defendem que desmatamento é desenvolvimento.” Para ele, Chico defendia que é possível se desenvolver sem destruir. Que é possível viver com populações na floresta e que isso é sustentável. E que é possível diversificar a produção dentro da floresta sem destruir.

“O Chico tinha muita preocupação com a questão da juventude. E o Chico conseguiu. Eu sempre disse que o Chico era um cara à frente do tempo dele. Ele falava em defesa da Amazônia quando era vereador no final dos anos 80 em Xapuri”, conta.

O artigo de Galeano demonstra que ele entendeu que o seringueiro estava falando em defesa da Amazônia, quando essa era uma expressão usada nos centros intelectuais do Rio de Janeiro, de São Paulo, dos grandes centros. O que, faz sentido com algo que Chico afirmou (desta vez, literalmente): 

"No começo pensei que estivesse lutando para salvar seringueiras, depois pensei que estava lutando para salvar a Floresta Amazônica. Agora, percebo que estou lutando pela humanidade.”

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