“A gente está lutando pelo direito de existir”: Comitê Chico Mendes reflete mês das mulheres na Resex

Final do Projeto Rede de Mulheres da Floresta esteve presente em duas comunidades na Reserva Extrativista Chico Mendes

Fotos por Hannah Lydia e Alberto Siqueira

O Projeto Redes de Mulheres da Floresta se encerrou na última sexta-feira, 27, depois de dois encontros em duas comunidades diferentes dentro da Reserva Extrativista (Resex) Chico Mendes. O primeiro, aconteceu no dia 8 de março na Comunidade Dois Irmãos e o segundo, aconteceu na sexta, na comunidade São Raimundo Nonato.

“Nessa conjuntura que a gente vive hoje aqui no Acre, com a triste situação de ser um dos estados que mais matam mulheres no Brasil, hoje a gente não tem muito o que comemorar, mas a gente tem que reativar a nossa luta, fortalecer a luta das mulheres, a participação, o conhecimento dos seus direitos”, afirmou Leide Aquino, moradora da Resex e coordenadora do Fórum de Mulheres do Alto Acre.

Para a entrevistada, estas atividades permitem que se discuta essa problemática e envolva mais mulheres, as mulheres da comunidade, as mulheres da floresta no debate. Para Angela Mendes, presidenta do Comitê Chico Mendes, o papel destas atividades é o seguinte:

“Eu acho que isso mostra o quanto o Comitê entende que as mulheres são um público essencial, que elas têm um papel muito importante em todas as áreas, no território, na gestão do território, na conquista por direitos políticos.”

Conversa entre gerações

Entre as presentes nos encontros, na Comunidade São Raimundo Nonato estava Francisca Bezerra, presidenta do Sindicato de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Brasileia (STTR) que contou para a matéria o que seria, para ela, exercer seu papel de liderança na Reserva Extrativista:

“Para mim, ser mulher na reserva é um sinal de muita coragem, porque as mulheres da reserva têm muita dificuldade de sobreviver no meio do machismo, no meio da dificuldade mesmo de transporte, de vida, de educação, de saúde. Então, todas nós sofremos com isso, mas as mulheres da reserva Chico Mendes, e de todas as reservas que são mais longe, que não têm acesso à educação, à saúde, à luz, à internet, essas mulheres têm que ter mais coragem, né, para sobreviver, para criar os filhos, para cuidar da sua casa, para cuidar da alimentação.”

Para elas, as atividades são um reflexo de coragem para continuar na luta pela sobrevivência das mulheres. A Rede de Mulheres da Floresta nasceu em 2023. A Rede de Mulheres da Foresta foi muito potente em diferentes aspectos, segundo a diretora do projeto, Yara de Paula, que vivenciou a evolução das meninas.

“A potência das suas vozes a cada novo espaço ocupado foi ensurdecedor. Ter sido ponte para a criação e fortalecimento dessa rede me deixa orgulhosa ao mesmo tempo em me faz relembrar que nossa luta é diária e nada fácil, mas estar em rede torna o processo mais leve e ainda mais forte. Espero que todas sigam com o brilho no olhar ao ocupar novos espaços de liderança e seguimos sendo resistência desde sempre! Que sigamos protegidas também pela força da encantaria da nossas florestas, juntas, em rede.”

“Cada encontro desses que a gente faz, a gente sai mais fortalecida por conta do desabafo das mulheres, do que as mulheres aprenderam, do que a gente aprendeu com elas”, reflete Bezerra.

Jovania Conde, de 17 anos, moradora da Resex fala sobre a importância da sabedoria produzida nos territórios para o mundo:

“O meu pensamento sobre o que o mundo aprendeu com as Resex é a importância da autopreservação da floresta, da biodiversidade e de tudo isso para o equilíbrio do clima sustentável do nosso planeta.”

Ao longo dos anos

O projeto teve ramificações em diversas oficinas pela Resex, além de atuação em eventos nacionais e internacionais como o Festival Amazônia Terra Preta e a COP30. Com parcerias com organizações como a Fundação Banco do Brasil, Ford e o Ministério Público do Acre (MPAC), que esteve presente no evento dia 8 de março, como conta a representante da instituição: 

Trazendo conhecimento, acesso à justiça, informações sobre a Lei Maria da Penha, sobre violência doméstica e familiar para todas as mulheres, neste dia em que a gente marca um ponto de luta e também de comemoração na luta das mulheres pelos seus direitos.”

Com 14 feminicídios registrados em 2025, o Acre lidera o país na taxa proporcional de assassinatos de mulheres, com 1,58 casos por 100 mil habitantes, segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública obtidos pelo g1. Em números absolutos, o estado também aparece à frente de Amapá, com 9 casos, e Roraima, com 7.

“A gente também tem vivido um momento muito delicado, de muita violência contra as mulheres, onde o Acre desponta como o estado que mais pratica o feminicídio. Então, para nós, é importante falar sobre isso, como é que a gente trata disso, o cuidado entre nós, mulheres, também”, explica Angela Mendes.

Francisca Bezerra, que está no movimento social desde 2008, dentro da Igreja Católica também fala sobre os desafios enfrentados:

“A gente sempre está ajudando uma mulher todos os dias. Os próximos passos são que a gente quer todas as mulheres com conhecimento, que a gente possa chegar em cada comunidade, em cada grupo familiar, e ter esse dia que a gente está tendo aqui, de informação, de conhecimento.”

Em comparação com 2024, quando foram registrados oito feminicídios, o Acre teve aumento de 75% nos casos em 2025. Relembre as vítimas aqui. Com isso, o estado volta ao pico da série histórica dos últimos 10 anos, repetindo os números de 2016 e 2018, que também registraram 14 casos cada.

“Acho que o Comitê trata isso de uma forma muito séria, colocando a mulher como protagonista de uma luta que é uma luta, acho, pelo direito até de existir. A gente está num momento em que está lutando pelo direito de existir. A nossa vida, a nossa história se restringiu agora a isso. Mas, na verdade, nós não somos só isso. A gente é luta, a gente é resistência, a gente é força política”, reflete Mendes.

Apelido de guerra

Uma das personagens encontradas e documentadas pelos projetos da Rede é dona Raimunda Conda, educadora da Resex e uma das primeiras professoras do Projeto Seringueiro, iniciativa que marcou a formação política e educacional das comunidades da floresta.

“Eu sou Raimunda Ferreira Conde. Tenho um apelido de guerra que é Conda. Todo mundo me conhece por Conda”, se apresenta, com a firmeza de quem carrega décadas de história na voz. O apelido, nascido nos tempos de formação coletiva entre educadores da floresta, permanece como símbolo de identidade e resistência.

O Projeto Seringueiro surgiu em meio a um cenário de exploração e desigualdade. Antes da organização comunitária, os trabalhadores enfrentavam relações profundamente injustas com os chamados marreteiros, intermediários que controlavam o comércio nos seringais. Foi nesse ambiente que a educação passou a ser pensada como ferramenta de libertação, impulsionada também pela presença constante de Chico Mendes nas comunidades.

A entrada de dona Conda nesse processo se deu quase por acaso, mas rapidamente se transformou em compromisso de vida. Recém-chegada à comunidade, já alfabetizada, ela foi escolhida em assembleia para assumir a função de monitora, num tempo em que sequer se usava o termo “professora”.

“Não era pensando em formar pessoas, mas fazer com que as pessoas saíssem do analfabetismo e começassem a conhecer a realidade deles e sentir o tanto que eram explorados.”

A construção da escola, feita em mutirão, sintetiza o espírito coletivo que marcou o projeto. Em 1988, a inauguração do espaço próprio representou mais do que uma conquista material, foi um marco simbólico de autonomia: “O povo todo feliz pela conquista, pela vitória que estava se realizando.” Mas a caminhada não foi simples. Para dona Conda, ser educadora significava conciliar múltiplas jornadas em um contexto de ausência quase total de apoio institucional.

“Foi difícil pra mim no início, porque ser dona de casa, ajudar na produção e dar aula. Nós não tinha ganho financeiro.”

A metodologia adotada valorizava profundamente o território e os saberes locais. Inspirada em práticas de educação popular, a proposta colocava a experiência dos alunos no centro do processo de aprendizagem.

Dificuldades de trajetórias

Mesmo diante das mudanças, os impactos do Projeto Seringueiro permanecem visíveis como o impacto em novas gerações como as jovens da Rede de Mulheres da Floresta. Dona Francisca Bezerra também conta do que quer para o futuro do Sindicato de Brasileia:

“Eu acho que o sindicato só vai estar bem quando cada uma das mulheres entender o que é o sindicato, o que é a luta, por que a gente tem uma mulher lá. A gente tem que valorizar muito isso. A questão das mulheres estarem presentes no sindicato, nos grupos de base, na associação. A maior parte das nossas mulheres é quem lidera o grupo familiar, então elas precisam ter esse conhecimento.”

Outro aspecto central era a produção coletiva de materiais didáticos, construída a partir das vivências da própria comunidade. Professores e alunos escreviam juntos, registrando histórias, saberes e experiências da floresta. Angela Mendes explica a importância desta atitude dentro do Comitê e toda a construção da Rede de Mulheres da Floresta:

“Acho que o Comitê nos coloca nesse lugar que a gente quer que as mulheres estejam. Não aumentando esses índices tristes de feminicídio, de violência doméstica, mas como seres que produzem, que têm força, que são políticas, enfim, que fazem e acontecem.”

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