Relatório final do Projeto Fluentes mostra como vozes amazônicas foram ampliadas por meio do inglês

Por Wellington Vidal

Parceria do Comitê Chico Mendes com a Correnteza capacitou lideranças para espaços internacionais

Projeto é fruto de parceria entre Comitê Chico Mendes e Correnteza. Foto: Reprodução

Conectando o aprendizado do inglês às realidades do território amazônico, o Comitê Chico Mendes, em parceria com a organização Correnteza, têm fortalecido o protagonismo de jovens amazônidas nos debates globais sobre clima por meio do projeto “Fluentes: Inglês & Clima para Ativistas”. Na segunda-feira (23), foi apresentado o Relatório Final do Projeto.

O curso, que teve duração de 10 meses e apoio do programa Vozes pela Ação Climática Justa, ofertou aulas semanais on-line voltadas à incidência climática internacional e à formação de lideranças. Ao todo, 17 participantes ingressaram na turma e 14 concluíram a formação, que realizou 33 aulas, com média de sete participantes por encontro. 

Uma das idealizadoras do projeto, Juliana Platero, da Correnteza, organização voltada para a educação para a paz e a cultura do cuidado no Brasil, conta como nasceu a ideia do projeto Fluente. 

“A iniciativa surgiu a partir de uma escuta ativa de  jovens ativistas climáticos, que relataram perder oportunidades concretas, como a participação em eventos internacionais, apoios e financiamentos, simplesmente pela falta de domínio ou pela insegurança no inglês.” 



De acordo com Juliana, também houve uma dimensão pessoal na motivação do projeto, e a primeira edição ocorreu em preparação para a COP 28, a qual a parceria com o Comitê Chico Mendes foi consolidada, ampliando o alcance do projeto.

Segundo o relatório final do  projeto, o  alcance geográfico chegou a 5 municípios do Acre: Rio Branco, Xapuri, Brasileia, Capixaba e Epitaciolândia, incluindo moradores da Reserva Extrativista Chico Mendes e integrantes do Movimento Jovens do Futuro em contextos urbanos. Juliana enfatiza sobre o fortalecimento dessa diversidade amazônida: 

“Essa combinação de floresta e cidade enriqueceu as trocas dentro da turma e fortaleceu vínculos entre realidades distintas, mas unidas pela mesma luta socioambiental.”

Além disso, a parceria também ancorou o projeto em uma tradição de resistência: as histórias de Chico Mendes e de lideranças locais como Julia Feitoza Dias e Leide Aquino foram traduzidas para o inglês e trabalhadas em aula, conectando os jovens às referências do movimento.

Um ensino da língua inglesa decolonial 

É de saber público que a língua inglesa é a mais falada no mundo, e isso reflete na dominância do idioma nos grandes fóruns climáticos internacionais (COPs, negociações da ONU, plataformas como a LCIPP (Plataforma de Povos e Comunidades Tradicionais). 

“Sem dominar o idioma, esses jovens ficam à margem dos espaços onde as decisões que afetam diretamente seus territórios são tomadas”, afirma Platero.

Além disso, o  relatório aponta que, historicamente, o acesso ao inglês ampliou desigualdades e limitou a representatividade de comunidades tradicionais nesses espaços. Nesse viés  projeto o Fluentes se propõe a inverter essa lógica:

“Em vez de um inglês desconectado da realidade amazônica, o projeto coloca o território, a luta e a identidade dos aprendizes como centro do aprendizado”, complementa Platero.

Os conteúdos abordaram estruturas como as negociações da ONU e a LCIPP, ademais o projeto também trouxe convidados com experiência prática na agenda climática global, entre ela um contato direto com uma falante nativa de inglês, de Filipinas, o que mostrou na prática que os alunos  já eram capazes de se comunicar internacionalmente.

Resultados gratificantes 

As autoavaliações registraram crescimento em todas as habilidades analisadas, vocabulário, confiança, escrita, expressão oral, leitura e escuta, sendo o maior avanço nas habilidades de confiança e vocabulário. Yara Araújo, uma das alunas relatou a experiência de evolução na língua inglesa ao participar do curso oferecido pelo projeto.

“O fluentes foi motivante e marcante durante toda a trajetória. Cada história me inspirava e minha evolução foi nítida desde o primeiro momento, primeira aula. Cada lição era carregada de sentido histórico e cultural que me fazia refletir que precisamos contar nossa história em outro idioma, mas carregando o sentimento e potência da voz amazônica contada na primeira pessoa, sem intérprete ou tradutor.

Além disso, Yara conta como o curso ampliou a segurança no idioma, possibilitando mais conforto em aplicar para mais editais de financiamento e poder enfrentar novos desafios linguísticos. 

“Atualmente, estou morando por um período na Inglaterra, e tenho a oportunidade de ser uma amazônida, falando na primeira pessoa, sobre minha história, sobre nossa cultura e falando sobre o clima na minha pesquisa científica, usando a minha tese de doutorado em ecologia e meu projeto pessoal para ampliar ainda mais as vozes amazônicas no contexto dos impactos humano agravado pelas mudanças climáticas para florestas da Amazônia brasileira.”

No início do projeto, os participantes relataram sentimentos como medo, frustração e insegurança em relação ao inglês. Ao final, 100% reconheceram ter vivenciado uma jornada de progresso e transformação. O projeto também produziu entregas concretas: uma carta em inglês endereçada a líderes globais sobre a COP 30, e a tradução coletiva da "Carta aos Jovens do Futuro", escrita por Chico Mendes pouco antes de sua morte.

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