Por onde andou Valdiza Alencar?

A mulher do sindicato que virou a voz da floresta do que é ser uma mãe na luta

Valdiza foi uma das pioneiras do movimento seringueiro do Acre. Foto: Elson Martins/Jornal O Varadouro

“Os sulistas que adquiriram as terras do seringalista Zeca Paixão, no Alto Acre, jamais pensaram em dificuldades para “limpá-las” [...] o aparecimento de uma mulher, dona de uma colocação, que sabia lutar por seus direitos e arregimentar pessoas, falando em resistir foi, para eles, algo absolutamente inusitado”, assim começa a matéria A Mulher do Sindicato, escrita por Elson Martins para o Jornal O Varadouro, em fevereiro de 1978.

A descrição lembra aquelas introduções de grandes sagas épicas cinematográficas. A história se passa há muito tempo, mas não em uma galáxia muito, muito distante. O trecho destacado descreve Valdiza Alencar, nascida às margens do rio Macauã e morava no seringal Sacado. 

Quando ela se encontrou com o jornalista, pela primeira vez, vivia em sua colocação no quilômetro 71 da BR-17, entre Brasiléia e Assis Brasil, onde o capataz Horácio a visitou, alertando para não mexer na propriedade, já que o seringal tinha um novo dono e ela teria que sair da terra sem direito à indenização… Mal sabia ele.

A desaparecida da história

Além disso, se sabe que ela cuidava da casa, do roçado e administrativa tudo, já que seu marido era deficiente físico. Após isso, se sabe muito pouco sobre ela. É quase como se ela fosse um sonho ou uma personagem de filme, que não possui parentes na vida real. Não há livros, como existem de Chico Mendes, Wilson Pinheiro, para Valdiza. Contudo, existem algumas homenagens esporádicas para sua figura nas redes de movimentos sociais, como o Comitê Chico Mendes.

Zezé Weiss escreveu a peça “Vozes da Floresta” baseada na vida de Valdiza Alencar. Foto: Fetec/CN

Uma delas, aconteceu no ano de 2025. A atual chapa de estudantes que comanda o Centro Acadêmico de Psicologia Ângela Haddad (Capah) na Universidade Federal do Acre (Ufac) colocou o nome de Valdiza em sua gestão. João Neto, presidente atual do coletivo, explica a escolha:

“Inicialmente a gente pensou em homenagear grandes figuras do nosso estado. Começamos a pesquisar mais profundamente até que nos deparamos com a Valdiza. Vendo um pouco, lendo as poucas reportagens que tem dela, é uma história muito linda, rica, incrível. E nós decidimos colocar o nome da chapa de Valdiza Alencar porque achamos que representa bastante o curso, mesmo não parecendo.”

Como dito pelo entrevistado, existem poucas reportagens sobre Valdiza. O estudante cita uma falta de arquivos oficiais. O que para Neto “é muito triste”, pelo fato dela ser uma das figuras históricas que fazem parte da história do Acre e acabam sendo esquecidas. Zezé Weiss, editora da Revista Xapuri, afirma que isso é mais comum do que parece com mulheres: 

O Português é uma língua que não facilita a inclusão das mulheres na história escrita, e os cipós do patriarcado o mais que podem apagam seus papéis na história social do Brasil. Imagina, em 1975, no seringal Carmen, se anunciar que estava criado o Sindicato dos Trabalhadores e das Trabalhadoras Rurais de Brasiléia ou, mesmo dez anos depois, o Conselho Nacional dos Seringueiros e das Seringueiras?”

Ao longo da escrita desta matéria, perguntando sobre Valdiza Alencar para pesquisadores da área, ativistas e pessoas contemporâneas da Mulher do Sindicato era comum ouvir que não se conhecia ela ou que sua presença no imaginário era recente.

Os únicos registros da história de Valdiza Alencar foram escritos pelo jornalista Elson Martins. Foto: Acervo Pessoal

“Vou lutar nem que o sangue chegue no meio da canela”

Quem disse esta frase foi a própria Valdiza para Elson Martins após responder os afrontes do capataz Horácio. Casou com 13 anos e como conta Martins, aos 35 era mãe de 15 filhos, dos quais restariam apenas seis vivos, e somente dois em sua companhia. Valdiza conviveu com indígenas Maronaua por boa parte de sua vida, na beira do rio. 

Weiss ao investigar sobre a trajetória de Valdiza reflete como no Acre, especialmente nos tempos de Chico Mendes, existiram mulheres, como Valdiza, que mudaram o passo da luta, mas foram negligenciadas pela história.

“Valdiza tinha tudo para ser protagonista: seringueira, sofredora, astuta, corajosa, com uma capacidade inacreditável de, em nome de um fio de esperança, correr atrás de uma utopia”, afirma.

Era uma mulher que lutava contra injustiças. Elson Martins lembra que depois que os sulistas falaram que não devia plantar mais nada, na sua colocação, e aguardasse uma indenização para abandonar as terras, não sossegou mais. Primeiro tentou reunir 10 seringueiros para ir a Rio Branco procurar as autoridades, mas só encontrou “esmorecimento”. Decidiu sair sozinha, para expor a situação ao Incra. Quem pode explicar melhor é a própria Valdiza:

“Bolando nesses seringais”, diz ela. “Fomos morar, eu, meu marido e meus filhos no seringal “Sacado”, que pertencia ao seringalista Zeca Paixão. Meu marido e eu fizemos estrada de corte, um pequeno campo e távamos começando a levantar uma casa quando as terras foram vendidas para uns paulistas. Eles começaram a derrubada da mata, iam derrubando e tomando devagarzinho as colocações. Aí a seringueirada ficou revoltada, porque procurava os seus direitos e não encontrava”.

Com esse cenário de ameaças à sua família, ela decidiu juntar outras famílias ameaçadas para resistir à expulsão da sua terra. Na época, os seringueiros não tinham consciência de nenhum direito. Não tinham ânimo. Os seringueiros nunca tinham sido tão vitimados. Os anos 70 foram Anos de Chumbo. Mas pelo rádio, essa mulher ouviu pelo rádio que João Maia estava no Acre para criar o Sindicato dos Trabalhadores Rurais. A vitória poderia estar perto.

Valdiza tinha tudo para ser protagonista
— Zezé Weiss

Sem perder tempo, montou sua égua e saiu mato adentro chamando seringueiros para irem à capital “procurar esse homem”. Todo mundo estava descrente de que poderiam encontrar ajuda de políticos e autoridades, como muitas vezes é hoje. A delegação regional da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), a partir de novembro de 1975, prometia o processo de criação de sindicatos de trabalhadores rurais no Acre. 

O delegado da Contag, Maia, que ela ouviu no rádio, prometeu ir nas comunidades e se reunir com os posseiros. Valdiza recorda a alegria do momento que soube dessa notícia, mas não estava nada garantido: 

“A seringueirada reunida, foi aquela animação. Uns ainda tinham dúvida de que alguém vinha fazer algo por eles. A não ser o padre, nunca ninguém tinha entrado naquelas brenhas pra falar com seringueiro. Diziam que de conversa fiada e promessa estavam de barriga cheia.”

Neto conta que, ao pensar na chapa de estudantes para o Capah, eles enxergavam Valdiza como uma mulher guerreira, batalhadora, que ao buscar no sindicalismo uma resposta para estes problemas sociais conversa com uma abordagem mais social da psicologia. 

“Para mim, a Valdiza Alencar foi uma mulher guerreira, batalhadora, nortista, acreana, e acho que com uma visão talvez muito à frente do tempo dela. Porque uma mulher que cuidava do marido, deixava também os filhos, para andar quilômetros e quilômetros até chegar no sindicato, para fazer todo o movimento trabalhista, realmente é um exemplo para nós. E é um orgulho nosso a Valdiza ter sido acreana.”

A caminhada que mudou tudo

A maré começava a mudar, mas precisava de um empurrão. Sem apoio de seus companheiros, Valdiza decidiu, então, ir para a capital conversar com João Maia e pedir celeridade na criação do sindicato da sua colocação. Valdiza andou, sozinha, 71 quilômetros até Brasiléia, depois pegou um ônibus para Rio Branco. Ela andou, andou e andou.

Suas andanças viraram peça de teatro. Zezé Weiss escreveu o espetáculo “Vozes da Floresta”, em que a atriz Lucélia Santos (Escrava Isaura) interpreta Valdiza. A peça há décadas é exibida, tendo sua apresentação mais recente durante a COP30, em Belém, ao longo da programação do Espaço Chico Mendes e Fundação BB, em novembro de 2025.

Como feminista, pensei que desenhasse a trama da peça a partir das mulheres, de certa forma poderia contribuir para que tivessem um pouco do reconhecimento que lhes é devido. Mais do que desafio foi a preocupação em traduzir a essência de Valdiza de uma forma leve e bonita, sem torná-la caricata, sem fazer dela um ser mítico e sim uma mulher de garra e de luta”, revela a dramaturga.

O texto definitivo foi baseado na matéria citada no começo desta reportagem, de Elson Martins. Depois que Weiss leu, ligou para Elson e passou horas falando com ele sobre a Valdiza. Pesquisou também na Academia, mas achou pouca coisa. Então na escrita, se inspirou nas mulheres da floresta e nos costumes de mulheres camponesas que conheceu.

Espetáculo emocionou público durante dois dias do Espaço Chico Mendes e Fundação BB. Foto: Alexandre Noronha

Neto, criado em uma região chamada Icuriã na Reserva Extrativista (Resex) Chico Mendes, em Assis Brasil, também ecoa este discurso. Ele afirma que a luta por direitos é fundamental e que ela precisa ser documentada. O estudante lembra que participou de um movimento sindicalista presidido por seu avô. Com a saúde mental em pauta, a luta de Neto e da juventude, segundo ele, precisa se espelhar nos movimentos sindicalistas que já aconteceram aqui na nossa região:

“Sem dignidade, sem luta, não há saúde mental, não há saúde. Então, quando as pessoas se juntam, existe um movimento familiar, grupal em si, em busca de algo específico. Por exemplo, os sindicatos. Existe uma junção ali, existe todo um fortalecimento. Isso é muito importante também para a comunidade deles.”

Valdiza conversou com João Maia. O delegado da Contag era um homem educado, fez Filosofia na Universidade de Montreal, falava seis línguas, trabalhou com as Ligas Camponesas em Pernambuco, mas poucos sabiam disso. O importante era que sabia conversar com os trabalhadores aflitos. Fazia questão de sentar-se no chão da casa, com as pernas cruzadas “sobre a paxiúba”. Dali a conversa fluía, solta e engajada.

Depois da conversa, Valdiza conseguiu. João Maia marcou a data para a fundação do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasiléia, o primeiro da região.

A luta seringueira também foi liderada por diversas mulheres como Valdiza. Foto: Deptº de patrimônio Histórico e Cultural - FEM

A reunião na casa da Mulher do Sindicato

Em 21 de dezembro de 1975, na casa de Dona Valdiza, a reunião iria acontecer. João Maia, na companhia do advogado da Contag, Pedro Marques, que tinha um jeito muito engraçado de falar do Estatuto da Terra, do Código Civil, de uma forma que os seringueiros se sentiam amparados, e Elson Martins, contratou uma caminhonete com tração nas quatro rodas para enfrentar as ladeiras enlameadas e chegar em Brasiléia. 

Por precaução, a cada ladeira os passageiros desciam do veículo e patinavam na lama, enquanto o motorista rodopiava. O grupo chegou molhado e sujo ao local da reunião, onde dona Valdiza, rodeada de homens e mulheres da floresta, estava radiante.

“Valdiza deixa como legado não só para o Acre, mas para os movimentos sociais do mundo todo um exemplo de humildade, ousadia, compromisso,  coragem, determinação e de luta. Foi uma grande guerreira”, disserta Zezé Weiss,

A recomendação de João Maia e Pedro Marques era baseada em dois documentos, o Estatuto da Terra e o Código Civil, um item apenas de cada. Com um ano e um dia trabalhando na terra, o trabalhador era considerado posseiro e não podia ser expulso de sua terra; em caso de ameaça à sua família, o trabalhador poderia reagir armado, o advogado (no caso Pedro Marques) teria elementos para defendê-lo.

Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri foi influenciado pelo trabalho de Valdiza. Foto: Tony Boccaccio

No dia 21 de dezembro de 1975, com cerca de três mil seringueiros, posseiros e agricultores, o STTR de Brasiléia, nasceu no pátio da Igreja, após uma reunião inicial na casa de Valdiza. Muitos dos seringueiros garantiram suas terras. Elias Rosendo, que visitava seringal por seringal batendo fotos para RG, foi escolhido presidente. Mas logo foi substituído por Wilson Pinheiro, que organizou o primeiro “Empate” no seringal Carmem em março de 1976. Chico Mendes foi escolhido secretário e Valdiza de Souza delegada sindical. Essa junção de coletivo e força, também se fez presente na concepção do Capah:

“Mas o que a gente realmente quis causar colocando o nome de Valdiza foi essa mobilização, trazer os olhares das pessoas para a nossa região. Colocar o nome de Valdiza foi para tentar valorizar a Valdiza, para tentar levar os olhares para essa mulher histórica”, reflete Neto.

Em setembro de 1979, os seringueiros deram uma demonstração de força, realizando na BR-317, próxima à Boca do Acre, o “Mutirão contra a Jagunçada”, que reuniu 300 sindicalistas para expulsar 12 jagunços armados e 45 operadores de motosserra que infernizavam a vida de posseiros. O acontecimento despertou a ira dos fazendeiros, grileiros de terras e seringalistas, que acabaram matando Wilson Pinheiro. Dez anos depois, Chico Mendes foi assassinado.

Epílogo

Após toda essa jornada, Valdiza deixou o marido e, com dois filhos pequenos, foi morar no bairro Aeroporto Velho, em Rio Branco, juntando-se às famílias expulsas da floresta com as quais criou novas formas de luta. Todos sabiam onde ela morava, na capital acreana. Morava em uma comunidade de expulsos do seringal. Um morador contava que:

“A qualquer hora do dia ou da noite, ela está sempre pronta para ajudar o pessoal daqui. Alguém que vai ter um filho, ou que está doente, sempre conta com a sua ajuda”.

Ela tinha 39 anos, mesmo tendo que cuidar de sua própria sobrevivência e de dois filhos, ela ainda encontrava momentos para refletir sobre a miséria dos seus semelhantes:

“A maioria desse pessoal que mora aqui, depois de expulso do seringal tá penando. Não é vivendo não, é penando mesmo. O Sr. (repórter) não sabe a fome que passam. A miséria aqui é grande, é pra isso que as autoridades têm que olhar”, esclareceu para Elson Martins.

Rosto de Valdiza Alencar divulgado em matéria jornalística. Foto: Reprodução

Ele continua descrevendo a conversa. Olhos muito vivos, um sorriso largo que não foi desfeito pelo sofrimento, Valdiza, tornada cidadã riobranquense, passa a mão na cabeça dos filhos, dizendo “vou educar esses dois”; e o faz de uma maneira que ninguém, mesmo os que não a conhecem, poderia duvidar. Dona Valdiza também refletiu sobre os políticos;

“Eles são assim, na época de eleição, tomam café com a gente, entram na casa do pobre, sentam na mesa e comem; depois desaparecem. Das duas uma: ou não conhecem os nossos problemas, ou fazem que não conhecem. O certo é que estão muito longe do nosso dia-a-dia. Por exemplo, nós passamos por todo esse problema de ter que vir para a cidade, perdendo as terras, e não conheço nenhum político que tenha apoiado os seringueiros.”

Contudo, Valdiza também relembrou do momento que mais sentiu esperança: quando o Sindicato de Brasiléia, o mais notório de todo o estado do Acre, foi criado graças a sua caminhada, ao seu reforço:

“Quando a Contag chegou, foi aquele burburinho. Fiquei tão emocionada e chorei. A reunião aconteceu e ficou marcado o dia 21 de dezembro (1975) para a fundação do Sindicato Rural de Brasiléia.”

O Sindicato continua de pé. Em 2025, completou 50 anos. Ele só veio a existir por conta da coragem e persistência de Valdiza Alencar. Gente assim, como ela, e parafraseando Elson Martins, nos faz viver sonhos e aflições. Foi assim que a Mulher do Sindicato partiu, mas também é assim que ela vive, com seu legado de amor e luta, até hoje.

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