Marujada: a história da manifestação cultural com mais de 80 anos no Acre
Por Wellington Vidal
Conheça a história do grupo que anima os carnavais de Rio Branco
Marujos da Amazônia tocam nos carnavais de Rio Branco. Foto: Ana Rita
No batuque do tambor que ecoa pelas ruas de Rio Branco, há um som que vem de longe, do tempo em que o corte da seringa marcava o sustento dos povos da floresta. Navegando pelas águas acreanas, a Marujada Brig. Esperança atravessa gerações há mais de 80 anos, como resistência cultural e mantendo viva a memória coletiva.
A Marujada é uma manifestação diversificada, levada adiante como uma brincadeira e com origem na década de 1940, em Cruzeiro do Sul, quando o amazonense Oswaldo Galego organizou a brincadeira na cidade, reunindo trabalhadores, entre eles o jovem Aldenor, que mais tarde se tornaria mestre. Quem conta essa história é o pesquisador Jobson Souza, brincante desde 2015 e que conheceu a marujada pelas mãos do mestre Aldenor.
“Meu primeiro contato foi em 2015. Em 2016 fiz minha primeira apresentação com o mestre, no Carnaval”, relembra.
O encantamento foi tão profundo que virou pesquisa acadêmica: ele escreveu a dissertação O Mestre e o Aprendiz na Marujada Brig Esperança, em Rio Branco, Acre, buscando compreender os sentidos dessa tradição.
Tradição e festa fazem parte desta brincadeira que já dura décadas. Foto: Ana Rita
De acordo com ele, em 1996, Aldenor mudou-se para a capital e, em 2001, montou pela primeira vez a Marujada Brig Esperança em Rio Branco. Desde então, a tradição se consolidou como uma presença marcante nos carnavais da cidade.
“Se a gente contar desde os anos 1940, são mais de 80 anos de existência no Acre. Em Rio Branco, ela existe desde 2001”, contextualiza Jobson.
Ondas da história
A encenação gira em torno da história de um navio da Marinha, o Brig Esperança, que enfrenta um motim em meio à cerração fechada. A narrativa é cantada e dramatizada pelo grupo. Há uma música de abertura, outra de encerramento e, entre elas, cenas e cantos que compõem a dramaturgia.
Em Cruzeiro do Sul, as apresentações aconteciam tanto em espaços públicos quanto nas casas de moradores que enviavam convites antes do Carnaval. O dono da casa escolhia as partes que seriam apresentadas, fortalecendo o vínculo comunitário da manifestação Jobson destaca que muitos mestres ajudaram a manter essa tradição ao longo das décadas alguns conhecidos, outros anônimos.
“Teve muita gente que aprendeu e montou sua própria marujada. Precisamos conhecer esses mestres que ficaram invisíveis na história”, afirma. Para ele, há uma ancestralidade que sustenta a brincadeira e que precisa ser reconhecida como patrimônio vivo da cultura acreana.
Marujada está presente até hoje em Rio Branco. Foto: Ana Rita
A história recente da Brig Esperança também carrega um marco simbólico. Em maio de 2023, aos 79 anos, mestre Aldenor faleceu, após enfrentar um câncer de pulmão. Antes de partir, passou o “comando da embarcação” para sua filha, Preta Souza, hoje Mestra Preta. O pesquisador acompanhou essa transição de perto e a considera um momento histórico.
“Pela primeira vez temos uma mulher à frente da Marujada Brig Esperança”, enfatiza.
Ele explica que o comandante é quem puxa os cantos, conduz os movimentos do cordão azul e amarelo e sopra o apito que orienta a dança. Desde 2023, é Mestra Preta quem ocupa esse lugar.
“Cada mestre faz a sua própria marujada. Hoje, a meu ver, é a Marujada da Mestra Preta. Ela carrega essa identidade”, observa.
Outro aspecto marcante é o caráter familiar que a manifestação assume neste momento. Segundo Jobson, historicamente a marujada não era uma tradição transmitida de pai para filha. Consolidado a partir de 2015 com um grupo que fortaleceu sua organização na capital, o coletivo mantém a marujada viva nos carnavais e em apresentações ao longo do ano.
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