Já, já é carnaval!

Artigo de opinião por Victor Manoel

Final do show do intervalo teve esta mensagem escrita. Foto: Reprodução/Internet

Todo mundo está rendido pela América Latina depois do show de Bad Bunny no LX Super Bowl, no último domingo. Caso você esteja dando uma de “Patrick Estrela” e more embaixo de uma pedra, esse show do intervalo da final do campeonato de futebol americano é o evento televisivo mais assistido simultaneamente no planeta. Caso queira conferir, assiste aqui. E ontem, quem estava no centro dele era um bigodudo de Porto Rico.

Bem, ele já foi careca, bem cabeludo, colorido, mas ontem, ele com um figurino branco e um cenário cheio de grama era, acima de tudo, latino. O Benito Antonio Martinez Ocasio falou de amor ao seu povo, sua terra, sua música. Mas pera, a música dele também é nossa, vivemos numa mesma terra, acordando as crianças que dormem na mesa dos casamentos, se pegando no carro na folia. O carnaval tá chegando também. Tem época mais propícia para falar de cultura?

Eu me emocionei demais vendo tudo isso. Acho que o sentimento de não se sentir sozinho é, de longe, o melhor que a cultura me traz. Seja eu, criança, ouvindo a Lady Gaga e tendo um misto de fascínio e medo com aquilo que falava tanto comigo. Seja eu, na adolescência, me sentindo pela primeira vez bonito, quando a Beyoncé subiu no palco do Coachella. Ou, agora, frequentando o Festival Jovens do Futuro e o Festival Varadouro e vendo a Duda Modesto, a Abigail Sulamita, a Maya Dourado, a Isabel Darah, o Jabuti bumbá, o Kaemizê e Norteando Sons, o Yubé y Siã Huni kuí, falando da gente.

Cultura é um negócio doido. Porque te diverte demais, te faz se sentir mais vivo, mas principalmente, ela é revolução. Óbvio que, falando de revolução, a gente sempre lembra do Chico e da sua carta a nós, Jovens do Futuro. Inclusive, fica a recomendação do post MARAVILHOSO que o time de comunicação do Comitê Chico Mendes fez no domingo de Super Bowl. Sem querer puxar sardinha, mas já puxando rs.

Tudo é permeado pela cultura. O carnaval é cultura. Política é cultura. Diversidade é cultura. Amor é cultura. Falando nele, o Coelhão terminou sua apresentação ao som de um remix da minha música favorita dela, El Apagón (fala sério, “La capital del perreo, ahora todos quieren ser latinos // No, ey, pero les falta sazón” é uma letra de entrar pra história e o videoclipe denunciando os apagões de Porto Rico é excelente também), com todas as bandeiras dos países da América Latina, citando-os, um a um, na mesma ordem da obra, “América Invertida” do Joaquín Torres Garcia. E de trás disso tudo, tava escrito: “a única coisa mais poderosa que o amor é o ódio”, em inglês.

Se você parou pra apertar o link e ver o post que indiquei mais cedo no texto viu que, nos Estados Unidos, o ódio tá impregnado na política. É algo que tá excluindo da diversidade que um país tem, os povos que fazem sua cultura existir. Famílias e crianças latinas sendo vítimas de atrocidades como prisão, mortes e vigilância extrema. O ódio tá querendo muito ser mais forte que o amor. Mas é a cultura que lembra que isso nunca pode acontecer, não tem como parar. A revolução pode demorar, mas ela sempre chega. Chico já viu a data dela, a gente só tem que se movimentar.

Citando aqui, outra obra que me lembrou isso. Semana passada, terminei o livro “O Morro dos Ventos Uivantes”, da Emily Brontë. A obra também fala de amor e ódio. De como um processo de colonização pode desuminar alguém e como, quando a resposta contra essa violência chega, a narrativa é sempre de que “quem começou foi ele”. É difícil não ser um retrato de ódio dos colonizadores. É difícil não se entregar ao ódio como o Heathcliff (protagonista do livro) fez. 

A revolta é necessária. Mas a gente precisa tomar cuidado, para que a violência não se torne contra a gente. Tive muito medo lendo, porque me via em situações que ele viveu e me perguntava: realmente existe uma necessidade de violência? Quando tudo isso acaba? Quem quebra esse modelo que trucida tanto a gente?

A verdade é que a resposta para isso tudo é bem complicada e demanda tempo. Mas principalmente, demanda coletividade. Coisa que o Heathcliff, infelizmente, nunca conseguiu arquitetar. Ele era sozinho tentando se vingar, contra-atacar um sistema inteiro. Assim não dá. Vendo aquele show e vivendo perto do que tudo que Chico e a Amazônia inteira ensina, percebo que a gente não precisa do ódio tanto assim. Ele faz parte, mas talvez ele precisa se transformar em outra coisa pra gente seguir em frente.

“O amor é um ato revolucionário”, já dizia Chico Cezar. E acredito que ele é a resposta que precisamos encontrar. Dentro da gente, primeiro, e depois pro mundo. Tá difícil, eu sei, mas vai melhorar. Como os movimentos pélvicos vulgares de Bad Bunny (amém!) agitando um estádio inteiro ao som de salsa e tantos outros ritmos latinos parecia uma imagem há, sei lá, uma década atrás, a virada tá vindo. A gente sente isso. A gente precisa acreditar nisso. 

A vida é curta demais para não ser feliz. E isso, nenhum governo pode tirar da gente. Nem ódio, nem repressão. Precisamos de você. Eu preciso de você. A gente consegue. E, já, já é carnaval.


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