Um sol pra cada acreano
Por Wellington Vidal
Como o racismo ambiental e o calor extremo afetam de forma desigual moradores de Rio Branco
Na capital acreana, moradores de bairros periféricos e de bairros nobres vivenciam realidades diferentes em relação ao calor. Foto: Assis Lima
Queimadas, enchentes e secas do Rio Acre tornaram-se frequentes, aliado a isso as ondas de calor intensificam ainda mais esse cenário. Em bairros periféricos de Rio Branco, como a Cidade do Povo, onde faltam árvores e infraestrutura adequada, moradores recorrem a ventiladores e uso de roupas mais finas para suportar as altas temperaturas. Por outro lado, no condomínio Bougainville, situado no bairro Isaura Parente, o mesmo calor é enfrentado com arborização, jardins e climatização.
O clima é o mesmo, mas o impacto é desigual e evidencia o racismo ambiental presente na capital acreana. Moradores do bairro Cidade do Povo precisam se reinventar para enfrentar o calor intenso. Alexandre Pereira, de 26 anos, professor de História, que é morador do bairro Cidade do Povo, relata que “fica mais difícil se concentrar, realizar atividades ao ar livre e manter a mesma produtividade nos estudos e no trabalho”.
Dentro de casa, o desconforto é ainda maior, ele conta que a residência, construída em blocos de concreto e com laje do mesmo material, absorve muito calor, especialmente no período da tarde. Para amenizar a situação, a família recorre a soluções simples, como o uso de ventiladores, a abertura de portas e janelas quando possível e a redução de atividades realizadas sob o sol forte.
Sem alternativas estruturais, Alexandre conta que o enfrentamento do calor exige improvisos no dia a dia: “Nós usamos roupas mais finas, evitamos usar roupas pretas, banhos com mais frequências”, diz.
A situação é agravada, segundo ele, pela falta de arborização no bairro. Alexandre observa que a escassez de árvores e áreas sombreadas contribui para transformar a região em uma ilha de calor, intensificando o desconforto para quem vive no local.
Na avaliação do morador, bairros pobres e periféricos sofrem de forma mais intensa com as altas temperaturas. Alexandre aponta que a falta de arborização, de infraestrutura adequada e de políticas públicas direcionadas a esses territórios aprofunda a desigualdade ambiental e compromete o bem-estar da população. “Esses bairros acabam sentindo muito mais o calor justamente porque não têm árvores, áreas verdes e investimentos que ajudem a amenizar esse problema”, afirma.
O bairro Cidade do Povo é um grande projeto habitacional iniciado para realocar famílias de áreas de risco, com mais de 10 mil unidades. Foto: Reprodução/AC24horas
Outro olhar
Enquanto isso, no bairro Isaura Parente , a realidade é totalmente diferente, no condomínio Bougainville, a moradora e estudante, Maria Clarissa, de 22 anos, conta que apresenta bastante área verde com jardins, algumas árvores e sombras e um parque com quadra de esporte. Além disso, ela conta com mais de um ar-condicionado em casa e jardins próximos, mesmo assim Clarissa afirma que o calor é um grande problema por ser quente e abafado.
Ao ser questionada sobre se ela percebe diferença entre o seu bairro com bairros mais periféricos, a jovem afirma:
“Sim principalmente no aspecto da infraestrutura, o local onde eu moro é mais próximo do centro da cidade. Moro numa área mais próxima do centro da cidade e percebo uma maior rapidez do poder público em resolver problemas nessas áreas do que em áreas que são mais distantes e possuem problemas que duram anos”, conta.
Racismo Ambiental
Toda essa estrutura e diferentes narrativas integram um cenário que marca o racismo ambiental, a qual configura-se na injustiça social e de meio ambiente, compostas por minorias étnicas que sofrem, devido à degradação ambiental e em decorrência das mudanças climáticas. A jornalista e ativista ambiental, Hellen Lirtez descreve o racismo ambiental como a negação de direitos básicos, como direito à água, à moradia digna, coleta de lixo, direito à existência, à uma comida digna e uma residência, ligado à questão racial.
Segundo ela, o termo no Acre tem raízes históricas no período colonial e no ciclo da borracha, quando populações vindas da floresta passaram a ocupar as margens dos rios, áreas que deram origem às cidades. Com o fim desse ciclo, essas pessoas permaneceram nesses locais, hoje marcados por intensos impactos ambientais.
“É justamente nas margens dos rios que se concentram os maiores problemas, como a retirada da mata ciliar, o acúmulo de lixo e os alagamentos”, afirmou.
O calor extremo tende a atingir de forma mais severa as populações em situação de vulnerabilidade social, especialmente aquelas que vivem nas periferias urbanas. A jornalista destaca que os efeitos das altas temperaturas vão além da questão climática e estão diretamente ligados às condições de moradia e de acesso a direitos básicos.
“Quem não tem como se refrigerar, não possui ventilador ou ar-condicionado, vive em casas sem forro ou com telhas inadequadas e ainda divide o espaço com muitas pessoas acabam sofrendo muito mais com o calor extremo”, explicou.
No Residencial Bouganville, no bairro Isaura Parente, as moradias custam em média R$ 290.000,00 a R$ 500.000,00, enquanto a locação cusat em torno de R$ 2.100,00/mês (mais taxas). Foto: Emerson Viana
Dados reveladores
De acordo com uma pesquisa conduzida pela Umane e pela Vital Strategies, com apoio do Instituto Deviveo, cerca de 32% da população dos estados do Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins, além de áreas do Maranhão e de Mato Grosso, já enfrenta uma situação considerada crítica em decorrência das mudanças climáticas.
O estudo intitulado “Mais Dados, Mais Saúde: Clima e Saúde na Amazônia Legal” ouviu 4 mil pessoas entre os meses de maio e julho de 2025, abrangendo moradores dos nove estados atendidos pela bacia do rio Amazonas e de comunidades isoladas. Os resultados apontam que os impactos das mudanças climáticas são percebidos no dia a dia da população de diversas maneiras, com destaque para o aumento no valor da conta de energia, mencionado por 83,4% dos entrevistados, seguido pelo calor mais intenso (82,4%) e pela piora na qualidade do ar (75%).
Levantamentos climáticos mostram que, em 2024, o Acre enfrentou períodos de calor intenso e passou a integrar o grupo de estados da Amazônia Legal mais atingidos pelo avanço do superaquecimento. As estimativas indicam que, até 2030, a temperatura máxima média no estado pode chegar a 35 °C, o que representa um acréscimo de aproximadamente 1,3 °C. As informações foram apresentadas em um mapa divulgado pelo perfil Brasil em Mapas, elaborado com base em projeções do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e ajustadas pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).
A jornalista destaca ainda que o conceito de meio ambiente precisa ser ampliado para além da floresta. “As cidades também são meio ambiente, e nas favelas e periferias as casas são mais próximas, mais coladas umas às outras, o que contribui para a intensificação do calor”, afirmou.
Outro ponto ressaltado pela ativista é a fragilidade da infraestrutura pública nesses territórios. De acordo com ela, o aumento de casos de desidratação, desmaios e outros problemas de saúde tende a sobrecarregar uma rede que já é insuficiente. “Nas periferias, há menos postos de saúde e menos profissionais para atender uma demanda que só cresce com o agravamento do calor”, pontuou.
Por um local com mais políticas públicas verdes
Hellen declara que a formulação de políticas públicas eficazes precisa considerar os atravessamentos sociais e raciais desde a base. Caso contrário, avalia, as respostas do poder público continuam falhando e acabam reproduzindo desigualdades históricas, aprofundando o racismo ambiental.
Além disso, o enfrentamento das desigualdades ambientais passa por uma mudança na forma como as cidades e as políticas públicas são pensadas. Segundo ela, é necessário um olhar transversal, que considere a interdependência entre os territórios urbanos e a floresta. “O que acontece nos centros urbanos chega a quem vive na floresta, porque estamos todos conectados”, afirmou.
A coordenadora de Educação Ambiental da Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema) e chefe da Divisão de Cidades e Meio Ambiente, Esmilia Medeiros, avalia que a redução das desigualdades e da injustiça ambiental passa, necessariamente, por políticas públicas direcionadas aos territórios mais vulneráveis.
Para a gestora, é essencial investir no mapeamento e no monitoramento dessas áreas, com a criação de índices de vulnerabilidade socioambiental que reúnam dados sobre renda, saneamento, arborização, calor urbano e riscos de enchentes e queimadas. Segundo ela, “identificar essas desigualdades é o primeiro passo para priorizar investimentos e dar transparência às informações para a sociedade”.
Rio Branco enfrentou 94 dias de calor extremo em 2024, segundo dados do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). Foto: Jardy Lopes
No planejamento urbano, é defendido que o ordenamento territorial incorpore o princípio da justiça ambiental, levando em conta corredores ecológicos, áreas verdes e os riscos climáticos. Ela destaca que esse cuidado é fundamental para evitar a reprodução de desigualdades históricas e afirma que é preciso impedir que populações de baixa renda sejam direcionadas para áreas mais expostas a enchentes, erosão ou queimadas.
A coordenadora também aponta o saneamento ambiental como eixo central para a redução das injustiças. De acordo com ela, a ampliação do acesso à água tratada, ao esgotamento sanitário e à drenagem urbana deve ser priorizada nos bairros periféricos, aliada a soluções baseadas na natureza. “Essas iniciativas ajudam a reduzir impactos ambientais e melhoram diretamente a qualidade de vida das comunidades”, ressalta.
No campo da governança, a participação social fortalece as políticas públicas e amplia sua efetividade. Esmília explica que o envolvimento de lideranças comunitárias, mulheres, juventudes e povos tradicionais é indispensável nesse processo e reforça que “não há justiça climática sem escuta e participação das comunidades”.
Além disso, a gestora enfatiza o papel estratégico da educação ambiental crítica e comunitária. Segundo ela, a atuação junto a escolas, centros culturais e associações locais, com metodologias lúdicas e artísticas, contribui para ampliar a conscientização e o engajamento social. Para Esmilia, “a educação ambiental é uma ferramenta de transformação, capaz de fortalecer o protagonismo das pessoas na defesa do meio ambiente e da justiça ambiental”, afirma.
“Um calor de rachar”
Antes de discutir as medidas necessárias para reduzir os efeitos do calor, é fundamental compreender os fenômenos ambientais que explicam esse aumento das temperaturas. No Brasil, e especialmente no Acre, esse cenário está relacionado ao fenômeno conhecido como ilhas de calor.
Antes de discutir medidas para reduzir os efeitos do calor, é fundamental compreender os fenômenos que explicam o aumento das temperaturas. No Brasil, e especialmente no Acre, esse cenário está associado ao fenômeno das ilhas de calor.
As ilhas de calor são áreas urbanas que apresentam temperaturas significativamente mais elevadas do que as regiões ao redor, devido à grande concentração de asfalto, concreto e edificações, que absorvem calor durante o dia e o liberam lentamente à noite. A escassez de áreas verdes e o calor gerado pelo tráfego e pelas atividades humanas intensificam esse fenômeno.
Esmilia Medeiros, destaca a necessidade de políticas específicas para enfrentar o aumento do calor urbano e a formação de ilhas de calor nos municípios acreanos. “A infraestrutura verde precisa ser tratada como prioridade, com metas claras de ampliação da cobertura arbórea e foco nas áreas que registram as maiores temperaturas”, afirma.
De acordo com Esmilia, a arborização urbana intensiva, com o plantio de espécies nativas adaptadas ao microclima local, aliada à criação de parques lineares e microparques, contribui para reduzir a sensação térmica e recuperar áreas degradadas, especialmente ao longo de igarapés e em terrenos ociosos nos centros urbanos. “Transformar esses espaços em áreas verdes é uma forma de devolver qualidade ambiental às cidades e melhorar o bem-estar da população”, declara.
A gestora também ressalta o potencial dos telhados e paredes verdes, defendendo incentivos fiscais para empresas e prédios públicos que adotem essas soluções. Segundo Esmilia, “jardins verticais, telhados verdes e hortas urbanas ajudam a regular a temperatura, além de fortalecer a relação da população com o espaço urbano”.
Outra frente destacada é a adoção de superfícies frias e de alta refletância, como pavimentos adequados para calçadas, ciclovias e vias secundárias, além de intervenções urbanas de baixo custo.
Para a coordenadora, ações como o sombreamento de paradas de ônibus com vegetação, o plantio de árvores de copa larga em rotas de pedestres e a implantação de ruas completas “têm impacto direto no conforto térmico e na mobilidade urbana”.
Mudanças para resfriar
No âmbito das políticas climáticas integradas, Esmilia defende a criação de um Programa Estadual de Adaptação Climática voltado ao enfrentamento do calor extremo e de eventos climáticos severos, integrando áreas como meio ambiente, planejamento, educação, saúde e assistência social.
Ela também destaca a importância de um Fundo Estadual de Justiça Climática, destinado a financiar projetos comunitários, iniciativas de educação ambiental e ações de mitigação e adaptação em áreas periféricas. “Investir nas comunidades é investir em justiça climática”, reforça.
Apesar dos avanços é importante ressaltar que os desafios permanecem vivos e quente como se houvesse um “sol para cada acreano”, é um “um calor de rachar”, como é costume se dizer no dialeto regional, para designar quando a temperatura está tão quente que parece rachar o asfalto.
É preciso haver mais discussões e investimentos contínuos em infraestrutura verde com os detentores do poder público, para que Rio Branco e outras cidades sejam locais mais agradáveis, a coordenadora enfatiza:
“A melhora já é perceptível, mas tornar nossas cidades mais frescas e resilientes depende de planejamento, recursos e participação social”, conclui.
Os cinco dias de temporada irão incluir uma oficina exibição de curta-metragem e recursos de acessibilidade, como intérprete de Libras