O menino e o… cinema: conheça Teddy Falcão

Por Tatiana Ferreira

Artista organiza em Rio Branco, exibição de curta-metragem na capital acreana

O cineasta acreano que constrói pontes entre experiências locais e a visibilidade cultural através do audiovisual. Foto: Alexandre Cruz Noronha

Em um território marcado por lutas socioambientais e resistência cultural, o audiovisual se afirma não apenas como forma de expressão artística, mas como ferramenta de preservação da história e transformação social. É nesse cenário que atua Francisco Teddy Falcão, cineasta acreano comprometido com o fortalecimento do audiovisual como instrumento de identidade e mobilização coletiva. 

Sua atuação transita entre produções cinematográficas e o movimento cineclubista. Ele integra o Cineclube Opiniões, com quase 16 anos de história, e também faz parte do Conselho Nacional de Cineclubes. É mestre em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP).

Trajetória e desafios

A partir do cineclubismo, surgiu a vontade de Teddy de fazer seus próprios filmes. Sua trajetória é marcada por muito estudo e dedicação. Começou assistindo e analisando cinema, aprofundando-se em referências e técnicas, e aos poucos passou a criar suas próprias produções. Seus filmes seguem sempre o caminho de viabilizar histórias negras e também já produziu conteúdos para o público infantil.

Produzir cinema no Acre ainda é um grande desafio. A falta de incentivo, recursos e cursos de capacitação limita o desenvolvimento de novos realizadores e obriga os cineastas a se reinventarem a cada projeto. No caso do audiovisual, segmento naturalmente mais caro por envolver diversas etapas e profissionais, essa realidade é ainda mais evidente.

“Aqui, infelizmente, não temos apoio e incentivo nessa área, os recursos são muito difíceis. Para os processos criativos, por exemplo, não há cursos de capacitação, então precisamos aproveitar oportunidades vindas de fora aproveitar os cursos disponíveis na internet”, destacou o cineasta.

Para realizar seus filmes, ele e sua equipe muitas vezes precisam investir do próprio bolso, adquirir equipamentos próprios e remunerar a equipe de forma independente. Quando há acesso a editais locais, os valores são geralmente muito baixos, suficientes apenas para cobrir etapas específicas, como a pós-produção, que exige serviços especializados. Mesmo diante das dificuldades, Teddy encontra motivação nos resultados de seu trabalho. 

“Eu me sinto uma pessoa feliz e realizada toda vez que apresento um projeto pronto. É muito importante pra mim. Os desafios se tornam bem pequenos diante da criação desses projetos”, concluiu.

E é assim que ele tem produzido cinema, transformando cada desafio em parte da luta criativa, uma luta exigente, mas inspiradora e recompensadora.

Compromisso com o cinema negro

Para Teddy, discutir cinema negro é questionar quem historicamente ocupou os espaços de direção, roteiro e decisão dentro da indústria cultural. Dentro disso, desenvolveu o projeto Rio Branco Negra, websérie antirracista que coloca no centro vozes e vivências negras da capital acreana, ampliando o debate sobre pertencimento, herança cultural e justiça social. 

Ao longo de sua carreira, Teddy dedica-se à formação de novos realizadores por meio de oficinas e cursos voltados à democratização do acesso às ferramentas de criação. Entre suas iniciativas está o curso O FilmEscola-Por um Cinema Possível, que capacita participantes em todas as etapas da produção audiovisual, oferecendo alternativas acessíveis à realidade do Acre.

Produção autoral e preservação da história

O cineasta constrói um repertório marcado por histórias enraizadas no território e pela reflexão sobre identidade, ancestralidade e pertencimento. Entre suas obras estão os curtas Francisco (2017), Um Negro de Cor (2017), a animação Como eu descobri minha cor (2024) e o documentário Amazônia em Corpo Preto (2026)

Suas produções abordam o luto, a violência e os processos de reconstrução da identidade negra na Amazônia, ao mesmo tempo em que ampliam o debate sobre a afirmação da presença cultural negra no estado, mostrando como as histórias locais são necessárias para reconhecer a diversidade e fortalecer essa presença cultural.

Além da criação audiovisual, Falcão desenvolve um sistema multiplataforma para preservar e digitalizar o acervo audiovisual acreano, ampliando o acesso público e garantindo a preservação da história cultural do estado.

Sempre à frente de seus projetos, registrando histórias e fortalecendo o audiovisual no Acre. Foto: Cedida

O alcance de sua atuação como formador e referência local se reflete na animação O Menino e o Rio (2025), produzida por estudantes do curso técnico de audiovisual em Rio Branco. A obra representou o estado na 5ª edição da Semana Nacional da Educação Profissional e Tecnológica, em Brasília, em 2025. Inspirado pelas memórias de infância de Teddy às margens do Rio Acre, o curta retrata a relação entre pai e filho, abordando lembranças marcadas pelas cheias do rio e pelas transformações urbanas da capital.

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